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Terra Blog

17.10.06

Uma interpretação de Gregório - parte I

O fato é que a pluralidade de interpretação, longe de ser um defeito e uma desvantagem, é o sinal mais seguro da riqueza do pensamento humano, tanto é verdade que nada é mais absurdo do que querer conceber a interpretação como única e definitiva (...).

Luigi Pareyson

por Eduardo Gama

1. Gregório para além da Bahia

Difícil, senão impossível, pintar um retrato do primeiro grande poeta brasileiro. Sabe-se a data do seu nascimento, 1636, mas se tem dúvidas acerca do ano de sua morte, talvez, 1696. Após o seu falecimento, o poeta ficou praticamente esquecido. No século seguinte, porém, o licenciado Manuel Pereira Rabelo publicou uma biografia e as obras atribuídas a Gregório. No fim do século XIX o poeta começou a ganhar a atenção dos críticos e, por fim, o século XX discutiu a sua obra.
Discutiu à maneira do século XX, ou seja, em lutas ideológicas. Gregório foi para uns, o imoral e, para outros, o homem que lutava contra a ordem estabelecida. Mais recentemente, alguns pensaram ser nenhum dos dois, apenas um homem do seu tempo.
Essa última afirmação parece ser a mais coerente, pois qualquer homem é homem do seu tempo. Reflete, portanto, se é um literato, os modismos do seu tempo. Em Gregório percebe-se muito bem esse fato: escreveu sátiras, poemas religiosos e eróticos, como era comum nos grandes nomes de sua época, tais como os poetas espanhóis Góngora e Quevedo. Logo, como afirma o professor João Adolfo Hansen em A sátira e o engenho – Gregório de Matos e a Bahia do século XVII, é impossível definir qualquer traço expressivo marcante na obra do poeta baiano. Segundo parece dizer o autor, é necessário analisar as condições em que os poemas foram escritos para se compreender Gregório. Deixe-se de lado o homem e o significado da obra e parte-se para o estudo da época e, fundamentalmente, do estilo predominante. Assim se terá a chave para a análise da obra.
Se é importante ressaltar certas características de época para compreender melhor a obra, como por exemplo o conceito de plágio, Hansen é preciso quando diz que românticos, concretistas e tropicalistas pretenderam moldar um Gregório de acordo com o seu tempo e a sua ideologia, sem levar em conta que Gregório não queria destituir os poderes estabelecidos através de seus versos, mas satirizar esses poderes, visto que a prática era comum no século XVII. Parece que o autor quer afirmar que é vã a busca de qualquer interpretação da obra, salvo a histórica.
O grande perigo dessa visão é confinar o poeta ao seu século. Levando às últimas conseqüências esse modo de pensar, A Divina Comédia seria fruto direto do meio cristão em que foi composta e pouco importa saber se Dante aceita as convicções expressas na obra; também Camões teria se utilizado do platonismo vigente como mera convenção renascentista e a mensagem da sua poesia é irrelevante ou inexistente, pois reflete as idéias do seu tempo. O filósofo Luigi Pareyson define o pensamento histórico, em contraposição ao revelativa, da seguinte forma: “Para encontrar o verdadeiro significado do discurso, é preciso considerar o pensamento não por aquilo que diz, mas por aquilo que trai, ou seja, não pelas suas conclusões explícitas, pela sua coerência racional, pela universalidade dos seus conceitos, mas pela base inconsciente que aí se exprime, isto é, a situação, o momento histórico, o tempo, a época.” (Verdade e Intermpretação, p.13)
Certo, muitos nos meios acadêmicos pensam dessa forma. Contudo, gostaria de expor uma visão diferente, que leva em conta as marcas históricas de uma obra, mas que transcende essa época, visto que a obra de arte tem como objetivo o homem. Não há dúvida que Gregório de Matos é um artista do seu tempo e utilizou-se das convenções literárias da sua época. Porém, acredito que Gregório é ainda hoje lido e estimado pelos leitores de poesia porque sua poesia insere-se na tradição brasileira.
Novamente um conceito – tradição - bastante equívoco. Entendo por tradição não “a transmissão de um resultado histórico, mas fundamentalmente escuta do ser, isto é, diálogo com o passado somente enquanto é reclamo à origem; e atravessa os séculos não porque esteja colocada no tempo, mas porque está inserida no próprio coração do advento temporal do ser. (...).” (idem, 46-47) A saber: não acredito que Gregório esteja inserido em uma tradição apenas porque escreveu no Brasil no século XVII e desde o século XIX faça parte da nossa história da literatura, mas sim porque a sua poesia, seguindo as regras poéticas do tempo, revelou algo sobre o ser humano. O passado aqui é visto “não tanto como anterior ao presente como vizinho do ser.” (idem, 47)

2. Gregório é tudo isso?

Essa pergunta, informal e provocativa foi posta com um sentido: Gregório pode ser visto como um poeta que revelou o ser em sua obra, que com sua vida nos transmitiu um ponto de vista sobre a verdade e por isso seja válido o estudo da sua obra hoje em dia?
É preciso uma análise, não tanto da sua vida, pois os documentos são mínimos e tendenciosos, mas sim pela sua obra. Como ainda não foi feita - e dificilmente será possível- uma edição da poesia de Gregório em que a autoria de todos os poemas seja comprovada, tomaremos como base a compilação de James Amado, Gregório de Matos: Crônica do viver baiano seiscentista. Para análise da sua poética, tomaremos como base o excelente trabalho de Segismundo Spina.

  • criado por  Eduardo Gama criado por Eduardo Gama
  • Postado em 20:09:34
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