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17.10.06

Uma interpretação de Gregório de Matos - parte II

3. Tentativa de interpretação

Como é conhecido, Gregório de Matos possui três facetas: o religioso, satírico e o lírico.
Das três, a última não legaria ao poeta a fama que hoje tem, visto ser, digamos, razoável. Isto porque o seu maior defeito torna-se evidente nesta parte: a imagética. De fato, Gregório não é um poeta muito imaginativo, como grande parte da literatura brasileira. Basta ver que não tivemos grandes livros do gênero fantástico, como na Europa. Além disso, o poeta baiano não realizou, na sua lírica, mais do que repetir o exaurido ideário renascentista, a la Camões, como no Namorado, o poeta fala com um arroio. O seu melhor poema lírico talvez seja A um passarinho cantando.
Não há dúvidas, mesmo entre os críticos, de que o melhor da sua produção concentra-se nos poemas satíricos. Ainda que pese o franco imoralismo em diversas poesias, muitas guardam o tom crítico bem humorado que ainda é tipicamente brasileiro. Como diz Spina: “A sátira foi a poesia por excelência praticada pelo poeta baiano; foi satírico acima de tudo, e nesse gênero ninguém o excedeu talvez em toda a América. (59)” Um dos melhores exemplares é “Aos caramurus da Bahia”, que vale a pena transcrever os últimos dois tercetos:

Alarve sem razão, bruto sem fé,
Sem mais leis que as do gosto, quando erra,
De Paiaiá tornou-se em abaité. (de pagé fez-se horrível, medonho. Termo tupi)

Não sei onde acabou, ou em que guerra:
Só sei que deste Adão de Massapé
Procedem os fidalgos desta terra.

Politicamente incorretíssimo, algumas vezes indesculpavelmente obsceno e racista: estamos no terreno no qual Gregório foi mestre. Na sátira, um outro defeito da sua poesia abranda-se, a saber: o exagerado uso de adjetivos, que tenta suprimir a ausência citada anteriormente, de imagens. Mas na sátira o adjetivo é fundamental.
Não é possível esquecer, dentre as sátiras, o poema Reprovações, composto em quadras de versos com sete sílabas, a redondilha:

Se andais devagar,- mimoso,
Se depressa, sois cavalo,
Mal encarado, se feio,
Se gentil, efeminado.

Como diz Spina, “ninguém melhor do que Gregório teria pintado os rumores da eterna maledicência”(195).
Contudo, é ainda na poesia religiosa que Gregório é mais conhecido. Versos como “Pequei senhor; mas não porque hei pecado...” (A Jesus Cristo Nosso Senhor) estão presentes em todas as antologias. É na poesia religiosa que o poeta é mais “barroco”, pois os jogos verbais, anadiploses (figura de linguagem que veremos a seguir) e antíteses aparecem com maior freqüência, como no poema nos últimos dois tercetos desse famoso poema:

Arrependido estou de coração,
De coração vos busco, dai-me os braços,
Abraços, que me rendem vossa luz.

Luz, que claro me mostra a salvação,
A salvação pretendo em tais abraços,
Misericórdia, amor, Jesus, Jesus!

Anadiplose: todos os versos têm início com a última palavra do verso anterior, salvo o último e o primeiro, logicamente.


Alguns falam na suposta falta de sinceridade dos poemas religiosos de Gregório, o que é difícil se não impossível de se saber. Fato é que, ao generalizar situações – Arrependido estou de coração- , nos dá essa impressão. Pode ser, mas basta o poema Ao menino Jesus, que traz a explicação: de Nossa Senhora das maravilhas da Sé, quando os hereges o fizeram em quartos, que foram achados por várias partes imundas, fez o autor dois sonetos, este o segundo da sacra, o qual reproduzimos integralmente a seguir:

Entre as partes do todo a melhor parte
Foi a parte, em que Deus pôs o amor todo
Se na parte do peito, o quis pôr todo,
O peito foi do todo a melhor parte.

Parta-se pois de Deus o corpo em parte,
mas a parte em Deus ficou o amor todo;
Por mais partes, que façam deste todo
De todo fica intacta essa só parte.

O peito já foi parte entre as do todo,
Que tudo mais rasgaram parte a parte;
Hoje partem-se as partes deste todo:

Sem que do peito todo rasguem parte,
Que lá quis dar por partes o amor todo,
E agora o quis dar todo nesta parte.

Difícil, enfim, contestar a sinceridade de um poeta que, ao ver uma estátua do Menino Jesus despedaçada lembra-se da Eucaristia e compõe esse belo poema, tanto no conteúdo como na forma, pois o soneto é muito oportuno para a exposição de temas profundos.
Outro poema em que podemos perceber a facilidade com que o poeta lidava com as forma é Salve Rainha a Virgem Santíssima, composto por quadras de sete versos, sendo que o último verso de cada quadra termina por uma parte da oração: “Sois divina formosura/ sois entre as sombras da morte/o mais favorável Norte/ e sois da vida doçura”.

4. Conclusão

Analisar a poesia de Gregório leva à conclusão de que se trata de um dos grandes poetas brasileiros. Embora concordemos com a opinião do crítico Antônio Cândido exposta em A Formação da Literatura brasileira, o poeta baiano merece ser incluído em um estudo dos poetas brasileiros. Apesar de não haver uma literatura nacional, havia já um poeta nacional.
O uso excessivo de gírias e termos próprios do seu século fez com que muito da sua poesia envelhecesse. Além disso, diversos poemas são somente variantes dos grandes nomes de então, como Gôngora e Quevedo. Entretanto, como pensamos ter sido exposto ao longo dessas considerações, Gregório de Matos legou à poesia nacional bons poemas sacros e satíricos.

  • criado por  Eduardo Gama criado por Eduardo Gama
  • Postado em 20:01:40
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