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Terra Blog

26.02.07

Um coração inteligente

Conta-se que, na década de 70, um jogador do time do Grêmio, de Porto Alegre, disse a um repórter que “estava muito feliz por jogar na cidade onde Jesus nasceu”. A cidade era Belém. Do Pará... Mas o fato é que perguntara como o jogador estava se sentindo. Ainda que a resposta mereça zero em geografia, em relação aos sentimentos ganha uma nota muito alta.

Hoje não se dá aos sentimentos o seu significado real, ou seja, de uma resposta a um valor, como diz Dietrich Von Hildebrand: “Talvez a razão mais contundente para o descrédito em que se encontra toda a esfera afetiva reside na caricatura da afetividade que se fez ao separar a experiência afetiva do objeto que a motiva e ao que responde a ela de modo significativo” (El Corazón, pág. 34). No caso do jogador de futebol, ele tão somente se enganou, já que a sua motivação não era jogar em Belém do Pará, mas ao menos partia de uma piedade sincera. Ele poderia ter respondido, como muitos, que sentia uma “emoção indescritível” e, neste caso, a sua resposta seria mais equivocada, já que seria irracional, pois não estaria ligada a nenhum motivo, apenas a uma sensação instintiva. Dizendo apenas sentir uma emoção muito forte, sem qualquer justificativa, teríamos uma resposta meramente subjetiva, que é aquela em que a situação objetiva não interesse enquanto tal, nem o seu pedido de resposta.

O problema de responder subjetivamente é que não há motivo para aquela emoção. Assim que os impulsos causadores desta reação cessarem, se acaba. Se a tristeza aparece, não sabe a razão, caso se sinta alegre, também não sabe. Com isso, uma das principais capacidades do ser humano, que é a de pensar sobre as situações que tem de passar diariamente, é inutilizada.

E por que se utilizar desta capacidade? Para saber que os fatos têm um sentido e que nossas emoções podem ser grandes aliadas para nos mover tanto contra o que nos causa mal quanto a favor do que nos faz bem. Quando não raciocinada, a emoção pode se tornar uma droga, pois na ausência de sentimentos que causem a reação agradável, a pessoa parte em busca de qualquer coisa que possa dar a mesma sensação mas, assim como a droga, as emoções têm de ser cada vez mais fortes e, paradoxalmente, causam cada vez menos satisfação.

Esse é o resultado da confiança ilimitada na “voz do coração” entendida não como a interioridade de uma pessoa, mas sim como um estado de ânimo. Esse modo de pensar se alastrou por causa da desconfiança sobre a capacidade da inteligência. Pensa-se, atualmente, que a verdade choca-se com os desejos, e transforma-se em um empecilho a legítima reivindicação de poder escolher. Em Ética a Nicômacos, Aristóteles afirma que a “escolha é ou inteligência desejosa ou desejo inteligente, e essa ordem de princípio é o homem”. Portanto, a inteligência que busca a verdade e o desejo que busca o bem são compatíveis e parte fundamental do homem. Quando se escolhe baseado na “voz do coração”, pelos desejos sem a razão, não se faz uma escolha livre, mas cede-se a um capricho, que é um “desejo breve e irracional”.

A pessoa verdadeiramente afetiva, o amigo que Vinícius de Moraes procurava, aquele que “basta ser humano, basta ter sentimento, basta ter coração” (Procura-se um amigo), é aquela que “responde ao bem que é a fonte e a base da sua experiência afetiva. Ao amar, busca o amado, na felicidade, dirige os seus pensamentos à razão pela qual está feliz. A verdadeira experiência afetiva implica o conhecimento do valor objetivo dos sentimentos”, afirma Hildebrand.

 

Conhecer os sentimentos e o seu valor objetivo significa conhecer-se para que tenhamos experiências afetivas que nos enriqueçam.

  • criado por  Eduardo Gama criado por Eduardo Gama
  • Postado em 10:51:53
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