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Há mais de um ano, escrevi um poema homenageando a obra de Bruno Tolentino. Para minha satisfação, o poeta pôde lê-lo:
Legado
As lições de trevas são raras
aos pobres mortais, Tolentino.
Cabe, poeta, talvez ao gênio
escorregar, não do destino,
mas de Deus (sabes mais que eu)
e mergulhar no precipício.
Voltar, eterno Prometeu
ou filho mais velho de Sísifo,
triturado, a salvo com Deus
não como parte de um castigo,
mas remir os pecados – seus
e do mundo, cúmplice amigo.
O que é isso
senão a bordadeira,
antiga Penélope
ansiando o regresso
do seu Ulisses,
Ou, como dizes,
o Cristo?
Isso é teu
E a tua freira.
E nós com isso?
Pergunto e respondo:
Viveste a fogueira
em busca do Paraíso
e, In Passim, lição de trevas,
espessas e tão dolorosas
que esse metro perto da fala
não pode almejar abarcá-la:
Observa-a cerimoniosa
sofrendo tentando imitá-la.
E do profundo
do fundo da treva do chão da cova,
(Manuel, minha cantiga é mais triste...)
as horas da Katharina
Não são minutos, mas séculos.
São a nossa história.
Mozart compôs um Réquiem
Para um tempo esnobe e orgulhoso
- era da idéia, acho que dirias-,
tu, que tens a maestria do verso,
orquestraste o nosso Réquiem,
As Horas de Katharina.
Funeral feito,
obra cumprida,
poesia vivida.
Restava o novo século
e outra luta severa
para ser vencida.
Mundo pós-moderno, que seja,
porém, nada novo o controle
da arte e vida pelo sistema.
Novo mundo, teorias velhas:
a saga do homem perdido
nesse oco mundo como idéia.
criado por Eduardo Gama
13:07:30