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27.11.06

A tragédia Grega e o drama moderno II

A tragédia moderna

George Steiner diz que a tragédia absoluta é quase impossível porque é insuportável. Nenhum ser humano consegue observar o nada existencial, por exemplo, em uma tragédia de cinco atos, diz o crítico. A tragédia absoluta nos últimos séculos foi realizada de modo fragmentário: “A peça teatral, conto kafkiano, o tratado niilista ou a apologia do suicídio podem ser obras formalmente completas. Continuam a ser, entretanto, fragmentárias. Uma obra dessas não pode ser extensa, porque a visão ali representada é insuportável” (op.cit. pág. 140). Conclui afirmando que, enquanto a tragédia absoluta dirigia-se a uma divindade mesquinha, a tragédia moderna, que chama de drama trágico, dirigi-se a uma divindade abstrata, no sentido etimológico de retirada, ausente.
Esta divindade abstrata acontece por duas razões: ou porque o homem “desaprendeu” a divindade, ou seja, não reconhece porque de fato nunca a conheceu, ou porque recusa a sua presença. O Gregório, de “A Metamorfose” parece-me pertencer ao primeiro caso, enquanto um Ivan Karamazov, de “Os Irmãos Karamazov”, ao segundo. Ivan discute sobre Deus, e acaba por fazer como o seu grande inquisidor, que pede a Cristo que saia de perto dele. Já Gregório vive o absurdo. Porém, como diz Steiner, em Kafka, “a ausência é a possibilidade mais radical da presença de Deus” (op. cit. p. 137). Ou seja, se a vida é tão absurda e o homem procura dar-lhe um sentido, ou é porque está louco ou porque de fato há um sentido na vida.
A maior tragédia moderna, portanto, não é lidar com deuses desconhecidos, ora bons, ora maus e sempre arbitrários. O homem moderno talvez nunca tenha tido tanto poder de escolha, de exercer a liberdade (o que não significa que é livre).
Optamos por chamar liberdade à capacidade de negar ou ignorar. Não pensamos como Shakespeare. Já não chamamos os deuses maus de vícios e os bons de virtudes, porque entendemos, ou queremos pensar, que vícios e virtudes existem na medida em que não há adesão pessoal à causa defendida. Acreditamos que não há causa a ser defendida, mas apenas uma opção, que pode ser revogada no momento que eu bem entender. Ou seja, não há nada que realmente valha a pena senão o momento, a felicidade como um estado de espírito, ou melhor, de sentimentos.
O drama moderno, já não a descrença orgulhosa do século das luzes, nem a crença um tanto pueril na vontade arbitrária dos deuses, é a crença em si mesmo como próprio deus. As revoluções do século vinte mostraram do que o homem é capaz.
Essa descrença em tudo que é alheio só poderá ser extinta se olharmos para o que há de mais humano e frágil, como nos diz o poeta Jorge de Lima:

Olhemos os olhos das crianças
para repousar nestes céus sem pensamento
a angústia de procurar pátrias distantes
e as constelações que já morreram.
(em Poesias Completas – vol.III, José Aguilar, pág.147)

  • criado por  Eduardo Gama criado por Eduardo Gama
  • Postado em 14:37:34
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