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Prefácio do livro Fé, verdade e Tolerância, do então Cardeal Ratzinger.
Num mundo cada vez menor, a questão do encontro entre as religiões e as culturas se tornou um tema urgente que não interessa somente à teologia. A questão da compatibilidade das culturas e da liberdade das religiões elevou-se à categoria de tema político de primeira ordem. Mas essa é, antes de tudo, uma questão das próprias religiões, de como se situam umas em relação às outras e podem contribuir para a “educação do gênero humano” na paz. A fé cristã é especialmente afetada por essa
problemática, pois ela, por sua origem e por sua essência, manifestou a pretensão de conhecer e anunciar o Deus verdadeiro, o único salvador de todos os homens: “Não há salvação em nenhum outro Nome, porque aos homens não nos foi dado sob o céu nenhum outro nome pelo qual
devêssemos ser salvos”, disse Pedro aos chefes e anciãos do povo de Israel (At 4,12).
Mas tal exigência, de uma pretensão absoluta, é hoje defensável?
Como se situa essa exigência para com a busca da liberdade das religiões e culturas? Quando a Congregação para a Doutrina da Fé, no ano 2000, publicou a declaração Dominus Iesus “Sobre a Singularidade e Universalidade Salvífica de Jesus Cristo e da Igreja”, houve uma gritaria de
indignação da sociedade moderna ocidental e também das grandes culturas não cristãs. Tratar-se-ia de um documento da intolerância e de uma arrogância religiosa que não mais deveria ter lugar no mundo moderno.
O cristão católico poderia apenas, com toda humildade, fazer a pergunta que Martin Buber certa vez formulara a um ateu: Mas e se isso for verdade? Assim, a verdadeira problemática por trás de todas as questões individuais está na questão da verdade. Pode a verdade ser conhecida? Ou a questão da verdade, no que se refere à religião e à fé, é simplesmente improcedente? Mas, então, o que significa a fé e o que significa positivamente a religião, se não se devem relacionar com a verdade?
Assim, gradualmente, foram-se formando as várias camadas da polêmica, nas quais estive envolvido na última década em diversas oportunidades.
Em primeiro lugar, é necessário procurar entender o que é a cultura e como as culturas se relacionam. Da mesma maneira, é preciso considerar o fenômeno das religiões como tal, não partindo, portanto, das “religiões” como uma massa uniforme. É necessário pesquisá-las no
seu movimento histórico, nos seus tipos e nas suas estruturas essenciais tanto como em seu possível inter-relacionamento, ou no seu ameaçador enfrentamento, para, em primeiro lugar, compreender, antes de tentar formular julgamentos. Finalmente, está em debate a questão fundamental acerca do homem: o que é o homem e como pode tornar-se ele mesmo ou perder-se a si mesmo. E, além disso, é imprescindível a discussão se o homem foi criado para a verdade e de que maneira ele pode, ou mesmo precisa, formular a questão da verdade.
Isso tudo constitui um grande programa, para o qual um pequeno livro, surgido de acasos, só pode dar uma muito modesta contribuição. Quando verifiquei minhas conferências proferidas no último decênio sobre esse tema, pareceu-me que, a partir de diversos pontos de vista, elas formavam como que um todo – certamente muito fragmentário e imperfeito, mas que como uma comunicação sobre um assunto amplo, que nos afeta profundamente, não seria totalmente inútil. Assim resolvi reunir neste livro, como uma totalidade, e submeter ao debate todos os textos surgidos na última década – com exceção da primeira contribuição, que é de 1964 – que tematizavam as questões da fé, da religião, da cultura, da verdade e da tolerância. Espero que uma obra assim surgida, apesar de todas as suas insuficiências, possa ser uma ajuda na luta por algo que nos toca a todos.
Roma, Festa da Transfiguração do Senhor de 2002
JOSEPH CARDEAL RATZINGER