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Em relação ao governo brasileiro, pode-se dizer que há duas posturas sobre o aborto. A primeira é a do presidente Lula: pode ser que sim, pode ser que não, quem sabe? Afinal, tudo é um jogo de futebol, uma caixinha de surpresas. Já o ministro da saúde, José Gomes Temporão, é enfático e taxativo: aborto é uma questão de saúde pública. Diz Temporão não poder permitir que milhares de mulheres morram em clínicas clandestinas devido a abortos mal-sucedidos. Ora, o argumento, além de surrado é, no mínimo, de difícil comprovação.
Como sabe o ministro dessas “milhares” (note-se a precisão numérica) de mortes em clínicas que, ao que sabe, não costumam enviar relatórios de suas práticas, afinal, são o que são, clandestinas, ilícitas? Se fossem mesmo milhares, certamente saberíamos via imprensa, visto o escândalo que isso acarretaria. Além disso, a morte de uma pessoa que,segundo a lei brasileira, comete um crime, apesar de muito triste e nada desejável, não deveria ser um caso de saúde pública. Talvez o fechamento dessas clínicas seria, assim como são fechadas clínicas estéticas nas quais a mulher morre após uma lipoaspiração, por exemplo.
As pessoas que são favoráveis ao aborto costumam se utilizar dos mesmos argumentos vazios porque parecem fugir à questão principal: a prática é ou não um assassinato? A palavra é forte, mas é preciso encará-la de frente. Se é, não podemos de modo algum permiti-la, pois, caso o seja, com quais argumentos poderemos defender a vida que vem sendo atacada cotidianamente em uma sociedade cada vez mais violenta? Afinal, é ou não é permitido matar em nossa sociedade? Se for, só nos restará a lei do mais forte, do mais armado...
Contra os que dizem ser uma iniciativa “católica”, vale relembrar o juramento do médico grego Hipócrates, século V ou IV a.C, que de hipócrita não tinha nada: “Não darei a ninguém nenhum preparado mortal, nem mesmo se me for pedido, e nunca darei tal conselho; também não darei às mulheres pessários para provocar o aborto” (História da Filosofia, Reali/Antiseri, p. 119).
Em uma questão ética, como é o caso do aborto, não cabe neutralidade, pois esta não existe. É preciso optar ou pela liberação do aborto ou pela sua proibição. Logo, dizer que o estado laico não pode defender a vida não passa de uma falácia. Dando um exemplo: deve o estado laico permitir a corrupção só porque pessoas são assassinadas devido a vinganças de grupos rivais? Afinal, não furtar é um dos mandamentos religiosos. Seguindo a argumentação de alguns, o estado laico deveria deixar a decisão de roubar ou não ao foro íntimo, à decisão pessoal.
Se a ciência biológica, jurídica e filosófica, como foi muitas vezes ressaltado aqui no Portal da Família, admite que a vida começa no momento da concepção, é de se suspeitar se a obstinação de alguns em relação à legalização do aborto pode ter outros motivos que não uma pretensa “defesa da mulher”. Afinal, se a medicina não se coloca ao lado da vida e da dignidade humana, qual é mesmo o seu papel?