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Como não foi possível ilustrar o texto abaixo com essa imagem, posto-a (?) aqui:
Pintura de Michelangelo: martírio de São Pedro
por Eduardo Gama - parte 1
O crime de ser cristão
Os primeiros cristãos, os que conviveram com as perseguições, ocupam três séculos da nossa História. As datas podem ser mais ou menos estimadas: iniciam-se com Nero, após o incêndio de Roma, em 18 de julho de 64, e tem fim em 313.
Uma das primeiras questões que salta à vista é: por que o Império Romano perseguiu os cristãos se tinha como norma a liberdade religiosa aos povos conquistados? Assim era com os judeus, que não precisavam cultuar os deuses e somente adoravam ao Deus único. Precisavam de um fundamento jurídico, como era regra no Estado romano. Qual foi a lei que autorizou as perseguições? Os historiadores levantaram três hipóteses: a aplicação de leis antigas, como o crime de lesa majestade, que punia quem não cultuava o imperador, a aplicação da chamada ius coërcitions, poderes policiais extraordinários para reprimir grupos que poderiam atentar contra a ordem pública e, finalmente, criar uma nova lei contra os cristãos. Essa parece a mais fundamentada, pois o simples fato de ser cristão era motivo suficiente para a condenação. O melhor argumento para essa tese reside no fato de que, caso o cristão negasse a sua fé, era imediatamente libertado.
Somente em 112 surgiu a primeira "lei" contra os cristãos. O legado imperial, Plínio, o jovem, escreveu ao imperador Trajano. Solicita aquele que o soberano o oriente sobre a atitude que deveria tomar contra os cristãos, visto que recebera acusações contra eles. Resumindo, Plínio questiona: "É punido o nome de "cristãos", mesmo sem crimes, ou são punidos os crimes que o nome deles implica?", quer dizer, alguém pode ser preso pelo simples fato de ser cristão? A resposta de Trajano é breve e, em linhas gerias significava o seguinte, de acordo com o historiador Daniel Rops: o cristianismo é um tipo de crime especial, já que a pessoa pode se arrepender e ser absolvida; indiretamente está reconhecida a inocência dos cristãos; as autoridades não podem tomar a iniciativa na perseguição; é preciso uma denúncia autorizada para iniciar uma investigação.” Portanto, a lei absurda foi essa: é proibido ser cristão. Cabe ressaltar que Plínio, dando satisfações ao imperador, nos dá um precioso relato de como o cristianismo estava espalhado na Ásia. Falando sobre o resultado de suas “providências”, escreve: “Os templos desertos até a pouco, começam a ser novamente freqüentados; que as solenidades sagradas até a pouco interrompidas, são retomadas; e que, por toda a parte, voltam a vender-se a carne das vítimas, até há pouco sem compradores. Disto pode-se concluir que uma multidão de pessoas poderia ser curada se fosse aceito o arrependimento delas.” A extensão do cristianismo, que deixava os “templos vazios”, bem como prejuízo causado aos vendedores de carnes para sacrificar aos ídolos apontam para outros motivos para a perseguição que não a interferência do poder imperial que, como o próprio Trajano indica, não estava interessado em perseguir os cristãos. Salvo em casos como o de Nero.
Duas grandes perseguições
A caça aos cristãos realizada por Nero pode ser facilmente explicada. O famigerado imperador, sem ter em quem colocar a culpa pelo incêndio de Roma, resolveu colocá-la sobre os ombros dos cristãos, pois o incêndio fora atribuído a ele. Aqueles, com boa quantidade de fiéis, já eram odiados por boa parte da população que não teve dificuldade em aceitar a tese de Nero. A perseguição durou o quanto restava do governo de Nero: quatro anos, após os quais os cristãos puderam respirar um pouco até o próximo ataque.
Em 81 Domiciano tornou-se imperador e foi implacável com os cristãos, mas a perseguição desencadeou-se nos últimos anos do seu governo, entre 92 e 96. Como muitos déspotas, morreu assassinado, mas não sem antes levar à morte muitos cristãos. Pela perseguição de Domiciano, sabemos que o cristianismo já tinha se espalhado entre a aristocracia romana, como o cônsul Acílio Glabrião e Flávio Clemente, primo do imperador, ambos mártires.
Dizia ser fácil de explicar, mas é difícil compreender. Por que os cristãos? A loucura de Nero ainda é pouco para justificar tal atrocidade. Por que o povo fez coro ao facínora? Uma explicação mais profunda nos é dada por Daniel Rops: “É que encontramos aqui um dos sintomas mais claros que anunciam a desagregação moral da sociedade romana e a sua futura decadência. Esta civilização que, sob tantos aspectos, havia elevado tão alto o seu ideal humano e tinha sabido formular-lhe princípios muitas vezes admiráveis, dispôs-se a humilhar o homem e a rebaixar-se a si mesmo com espetáculos de uma incrível selvageria.” Essa sociedade odiava os cristãos porque não podia conviver com um grupo de homens que, pela sua própria conduta, atestava a decadência moral que enfrentava. Em vez de serem vistos como solução, foram tidos como inimigos, a ponto de fazer Tertuliano exclamar: “Se o Tibre transborda, se o Nilo não inunda os campos, se o céu está fechado, se sobrevém uma fome, uma peste, uma guerra, um só grito se levanta: “Os cristãos às feras! À morte os cristãos”.