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Um dos grandes debates da filosofia da arte diz respeito à relação entre a obra e o seu autor. A arte é pessoal, biográfica ou impessoal, reflexo do tempo, como vimos anteriormente? Se fossemos colher uma opinião entre artistas, não chegaríamos a nenhuma conclusão. O Romantismo como um todo afirma o caráter biográfico, enquanto o neoclassicismo, o impessoal. Mais recentemente, T.S.Eliot afirmou que a poesia “não é expressão da personalidade, mas uma fuga da personalidade”.
O grande problema dessas discussões é que são inócuas, pois tentam impor uma poética, um programa de arte. Não é uma Estética, não é filosofia porque manifestam um ponto de vista, aliás, legítimo, sobre a arte. A busca de Eliot pela impessoalidade em seus poemas nos legou uma obra de grande qualidade. Mas para Manuel Bandeira, Vinícius de Moraes, Vitor Hugo... o programa é válido? Nem todo artista é Flaubert, que buscava o distanciamento do que iria relatar.
Porém, é necessário compreender estas poéticas para que possamos ver que ambas são válidas.
Arte biográfica
Basta um passeio por uma livraria pra perceber que a biografia dos artistas pode ser facilmente encontrada. O público, certamente, prefere a corrente que advoga a biografia como fundamental para o artista. Os críticos tentam em vão convencê-lo de que não adianta esquadrinhar a vida do artista em busca da explicação da obra. O apreciador leigo da arte ignora argumentos e continua buscando informações sobre a vida dos autores que admira. Curiosidade? Sede de fofoca e escândalo? Também, mas não apenas.
Quando especialistas tentam provar a todo custo uma tese, mas o público não se convence, geralmente há uma intuição que o impede. Não sabe explicar, mas a experiência de vida o adverte de que algo está errado na “idéia”.
O filósofo Luigi Pareyson salienta dois aspectos em que a arte pode ser chamada de pessoal. Em primeiro lugar, diz que toda atividade humana é pessoal, seja de um arquiteto, jornalista, engenheiro, etc. As catedrais construídas na Idade Média foram obras coletivas, mas que tiveram a intervenção pessoal de cada um dos trabalhadores. Coletivo não significa, necessariamente, impessoal, mas anônimo. O segundo aspecto, afirma Pareyson, é mais profundo. Ser artista é formar algo, fazer uma obra original, singular, irrepetível. Portanto, “no exercício de tal atividade, desaparece [a pessoa] inteiramente nesta [na obra], tornando-se seu ato, ou melhor, seu gesto: a pessoa toda torna-se gesto de fazer, modo de formar, estilo”. Logo, o artista está presente na obra, pois foi ele quem a moldou, a trouxe ao mundo. Contudo, não é uma “expressão do artista”, mas a sua pessoa que está presente, “não fotografada num dos seus instantes (...), mas colhida na sua integridade viva, e solidificada, por assim dizer, num objeto físico e autônomo.”
Com essa afirmação, a atitude do filósofo parece ser dúbia, pois afirma o caráter pessoal da obra ao mesmo tempo em que salienta a sua autonomia em relação ao artista. Ressalta ainda que a criatividade está ligada a essa independência: “O sinal mais evidente da criatividade é o fato de a iniciativa do artista culminar na autonomia da obra”.
Ora, autonomia não é impessoalidade. O que o filósofo afirma é que a criação passa pelo “filtro” do artista que a molda de um jeito único – ou seja, com o seu estilo – e que essa obra já não lhe pertence mais, pois o ultrapassa, visto não ser biográfica, mas pessoal. O artista imprime a sua marca, mas não necessariamente a sua circunstância. Quem teve a oportunidade de escutar um artista explicando a circunstância da criação de determinada obra sabe que esta pouco importa. É interessante, enriquecedor, mas o texto é bem mais rico e repleto de significado. Talvez seja por isso que muitos artistas tem horror a contar fatos biográficos, pois impede a compreensão de texto. Este não relata o momento do artista, mas a sua pessoa, a sua interioridade face a acontecimentos, situações e idéias da vida.
continuação
Arte Impessoal
Dissemos que a obra de arte não é impessoal, mas autônoma. Para que fique claro o nosso ponto de vista, é interessante conceituar as poéticas da impessoalidade. Duas exerceram grande influência no século XX: a positivista e a marxista.
O positivismo de Comte na filosofia e o de Taine arte ressaltou, respectivamente, o condicionamento social da pessoa e o da arte. O segundo, que nos interessa aqui, deu origem ao que se chamou na história da literatura de Naturalismo. A arte deveria refletir o meio, o povo e o momento. O artista seria um observador imparcial e implacável: tudo vê, mas não opina, apenas relata os fatos. Claro que é mais um programa de arte do que um fato, pois ser um cientista da realidade é uma tarefa árdua, visto termos mentalidade e valores que nos fazem olhar para as coisas sob um determinado ponto de vista.
Já a poética marxista pretendeu uma arte que “promovesse o novo tempo”. Pareyson afirma não haver problema nessa poética, contanto que a obra brote “espontaneamente da alma do artista”. Um exemplo foi Maiacovski, o grande poeta russo, que dizia escrever com um mandato social em baixo do braço, uma urgência social que precisava ser transmitida ao povo. Porém, curiosamente, os seus melhores poemas não são “engajados”, mas líricos...
A impessoalidade na arte tem muitos adeptos porque há um fato verdadeiro em suas afirmações. A arte é feita pela pessoa, que é única e irrepetível, porém, também é social. Pareyson recorre novamente ao conceito de pessoa para explicitar o fato: “Toda atividade humana, e portanto também a arte, tem sempre um caráter inventivo e condicionado a um só tempo.” Finaliza com uma afirmação brilhante: “O problema suscitado por estas discussões não é tanto o condicionamento social da arte: este é tão evidente, que seria difícil negá-lo sem um reconhecimento qualquer. O que importa é consolidar qual a relevância artística que este condicionamento tem”.
Podemos afirmar, portanto, que a arte é pessoal e autônoma, e não biográfica ou condicionada.