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O crítico George Steiner escreveu que é impossível para o homem suportar a tragédia absoluta. Por tragédia absoluta, chama a obra que “proclama, axiomati-camente, que o melhor mesmo é não nascer ou, sendo isso inevitável, morrer cedo” (Nenhuma Paixão Desperdiçada, Record, pág. 139).
É o caso de Hércules na obra de Eurípides. Após realizar os doze trabalhos, o herói volta para casa e vê que seu pai, sua mulher e filhos estão sendo ameaçados de morte pelo rei. Porém, não é o rei que acaba por matá-los, mas o próprio Hércules que, por inveja dos deuses, é tomado pela loucura. Quando cai em si, nota que poupou apenas o pai: “Ai de mim! Por que poupo então a minha vida/ já que sou o assassino de meus filhos tão amados? (Héracles, pág.137, trad. Cristina Rodrigues Franciscato)
Em Édipo Rei, de Sófocles, o protagonista repete quase literalmente as palavras de Steiner: “(...) Se então morresse, não causaria tantas aflições aos que me são caros e a mim próprio”, diz referindo-se ao seu nascimento que poderia não ter acontecido. (Tragédias do Ciclo Tebano – Livraria Sá da Costa, pág. 61 – trad. Pe. Dias Palmeira) Os pais de Édipo, Laio e Jocasta, desobedeceram aos deuses e tiveram um filho. Por isso, tanto os pais quanto o filho foram amaldiçoados. É difícil achar uma razão para a infelicidade de Édipo além da desobediência dos seus pais. Pode-se dizer que Édipo tentou fugir da vontade dos deuses, porém, não foi por desobediência, mas para evitar matar ao próprio pai. A única falha que lhe pode ser atribuída é a mesma que em determinado momento o Coro lhe diz: “(...) porque facilmente tropeçam os que tomam uma resolução precipitada”. (idem, pág. 30)
Édipo, por diversas vezes, precipita-se. Porém, todos esses erros causam compaixão, pois não há como pensar que, no lugar de Édipo, qualquer pessoa faria o mesmo, ou, quem sabe, até pior. Pensamos que, apesar de não ser perfeito, não merece tamanha desgraça.
Édipo Rei é parte de uma saga, chamada “O Ciclo Tebano”. A continuação da primeira tragédia, Édipo em colono, esclarece em parte a razão do destino trágico do protagonista. Já na velhice, Édipo tem sua reputação restaurada. “Enquanto no Rei Édipo o protagonista é quase divinizado pelos homens, mas odiado pelos deuses, aqui (Édipo em Colono) dá-se o contrário: está reconciliado com os deuses e só os homens lhe disputam a sua grandeza” (idem, pág. 52 da Introdução). A última fala de Hércules também é esclarecedora, pois aponta uma mudança de atitude em relação à vida: “Aquele que riqueza ou força mais do que/ bons amigos deseja possuir pensa mal” (op.cit. pág. 155). Hércules sempre conquistou glórias à base da força. Nisso residia o seu próprio ser e o fazia presunçoso a ponto de pronunciar sem temor o nome de deuses que todos tinham medo. Além disso, a sua própria força foi motivo da sua queda: matou muitos inimigos, mas matou aos que mais amava.
Tanto Sófocles como Eurípides não podiam esclarecer uma questão essencial da vida humana: o sentido do sofrimento. Sófocles é o que se aproxima mais da questão, pois vislumbra a glória como causa de queda e a queda como redenção. Após a dor, segundo Sófocles, o homem “cai em si e se submetem à vontade soberana; e, neste caso, expiada a culpa, o paciente é moralmente reabilitado”(op.cit. pág. 51 – introdução). Entretanto, a vontade dos deuses é sempre arbitraria, sem sentido. Resta ao homem obedecer cegamente ou sucumbir. Os deuses não são temidos, causam medo. Porém, trata-se de uma era pré-cristã.
Macbeth e o interior do homem
Com o cristianismo, a situação já não é a mesma. O homem já não se dirige a um deus desconhecido, ou apenas conhecido pela sua arbitrariedade. A ação concentra-se no homem, no seu interior. O homem tem como guiar as suas ações visando o bem. Teme apenas as suas más inclinações.
Macbeth, personagem de Shakespeare, mata o rei para tomar-lhe a coroa. Para cometer tal crime, em primeiro lugar despreza a lei moral: “Se o assassinato pudesse manear as suas conseqüências e agarrar, com o próprio fim, seu sucesso! Se esse um golpe pudesse ser o tudo necessário para o fim de tudo! Aqui, e somente aqui, nesta vida, um tempo que não é mais que um banco de areia nos mares da eternidade, abriríamos mão da próxima vida (Tragédias, Shakespeare – trad. Beatriz Viégas-Faria, pág.163). Em seguida, despreza a lei dos homens: “Primeiro, sou dele parente e súdito, duas fortes razões contra tal ato; depois, como seu anfitrião, devo fechar meus portões a seu assassino, e não empunhar eu mesmo a adaga” (idem). O último sopro para a queda é dado por Lady Macbeth, que o incita ao orgulho, chamando-o de covarde e, como a um Herodes, conclamando-o a realizar o ato que havia jurado fazer. O fim do primeiro ato mostra como Shakespeare se concentra no interior do homem: “Aquilo que sabe o coração falso, a cara falsa deve esconder” (idem, pág.166).
Outra característica da tragédia depois de Cristo é a esperança, como nos relata Shakespeare em Macbeth. Após a morte de Macbeth e de sua esposa, Malcom, legítimo herdeiro do trono, diz que retribuirá o amor dos súditos implantando uma nova era: “Isso, e tudo o mais necessário que é de nossa obrigação, pela graça da Graça Divina, será cumprido na justa medida, hora e lugar” (idem, pág. 245).
Aos deuses desconhecidos ou ingratos, Shakespeare chamou-os de vícios, aos bons, virtudes.
A tragédia moderna
George Steiner diz que a tragédia absoluta é quase impossível porque é insuportável. Nenhum ser humano consegue observar o nada existencial, por exemplo, em uma tragédia de cinco atos, diz o crítico. A tragédia absoluta nos últimos séculos foi realizada de modo fragmentário: “A peça teatral, conto kafkiano, o tratado niilista ou a apologia do suicídio podem ser obras formalmente completas. Continuam a ser, entretanto, fragmentárias. Uma obra dessas não pode ser extensa, porque a visão ali representada é insuportável” (op.cit. pág. 140). Conclui afirmando que, enquanto a tragédia absoluta dirigia-se a uma divindade mesquinha, a tragédia moderna, que chama de drama trágico, dirigi-se a uma divindade abstrata, no sentido etimológico de retirada, ausente.
Esta divindade abstrata acontece por duas razões: ou porque o homem “desaprendeu” a divindade, ou seja, não reconhece porque de fato nunca a conheceu, ou porque recusa a sua presença. O Gregório, de “A Metamorfose” parece-me pertencer ao primeiro caso, enquanto um Ivan Karamazov, de “Os Irmãos Karamazov”, ao segundo. Ivan discute sobre Deus, e acaba por fazer como o seu grande inquisidor, que pede a Cristo que saia de perto dele. Já Gregório vive o absurdo. Porém, como diz Steiner, em Kafka, “a ausência é a possibilidade mais radical da presença de Deus” (op. cit. p. 137). Ou seja, se a vida é tão absurda e o homem procura dar-lhe um sentido, ou é porque está louco ou porque de fato há um sentido na vida.
A maior tragédia moderna, portanto, não é lidar com deuses desconhecidos, ora bons, ora maus e sempre arbitrários. O homem moderno talvez nunca tenha tido tanto poder de escolha, de exercer a liberdade (o que não significa que é livre).
Optamos por chamar liberdade à capacidade de negar ou ignorar. Não pensamos como Shakespeare. Já não chamamos os deuses maus de vícios e os bons de virtudes, porque entendemos, ou queremos pensar, que vícios e virtudes existem na medida em que não há adesão pessoal à causa defendida. Acreditamos que não há causa a ser defendida, mas apenas uma opção, que pode ser revogada no momento que eu bem entender. Ou seja, não há nada que realmente valha a pena senão o momento, a felicidade como um estado de espírito, ou melhor, de sentimentos.
O drama moderno, já não a descrença orgulhosa do século das luzes, nem a crença um tanto pueril na vontade arbitrária dos deuses, é a crença em si mesmo como próprio deus. As revoluções do século vinte mostraram do que o homem é capaz.
Essa descrença em tudo que é alheio só poderá ser extinta se olharmos para o que há de mais humano e frágil, como nos diz o poeta Jorge de Lima:
Olhemos os olhos das crianças
para repousar nestes céus sem pensamento
a angústia de procurar pátrias distantes
e as constelações que já morreram.
(em Poesias Completas – vol.III, José Aguilar, pág.147)