| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | ||
| 6 | 7 | 8 | 9 | 10 | 11 | 12 |
| 13 | 14 | 15 | 16 | 17 | 18 | 19 |
| 20 | 21 | 22 | 23 | 24 | 25 | 26 |
| 27 | 28 | 29 | 30 |
Um dos aspectos que mais chama a atenção em Os Lusíadas é o discurso do Velho do Restelo. E chama a atenção porque condena o empreendimento, paradoxal-mente celebrado em inúmeras oitavas. O que levou Camões a dar voz a tal personagem agourenta? Respondendo a alguns críticos que viam nessa fala uma oposição a D.João III, Hernani Cidade escreve: “O problema não é a oposição de Camões a D.João III, é antes a oposição do Camões que escreve estas estrofes ao Camões que escreve e começa: “Vós portugueses, poucos quanto fortes,/que o fraco poder vosso não pesais;/ vós, que à custa de vossas várias mortes/ a lei da vida eterna dilatais... (VII,3)”.#
De onde nasce essa oposição em um legítimo patriota? Seria o escritor português contra as navegações? É evidente que não. É necessário, portanto, analisar a fala do velho do restelo para compreender. Há dois versos que foram comentado por Antonio Sergio e auxiliam a compreender essa discordância:
Com um saber só de experiências feito
Tais palavras tirou do experto peito#
“Ser experto, ter um saber só de experiências feito, é, na boca de Camões o elogio mais inteiro, a garantia de maior valor. (...)” Como conciliar, portanto, as duas atitudes do seu poema: a crítica do feito, e a sua sublime exaltação? A meu juízo, basta considerar, primeiramente, a duplicidade do ser humano: traz grandes males a ambição: é porém ela, afinal de contas, que valoriza a nossa vida, que glorifica o nosso afan.” Em seguida, o crítico enumera os diversos erros cometidos na obra do descobrimento.
O Velho do Restelo é, portanto, a voz da dúvida. Um fato que auxilia a compreender essa visão de Camões é que escreveu a epopéia menos de um século após a era das descobertas marítimas. Além disso, viu de perto, quando esteve nas Índias, o modo como a conquista vinha sendo realizada. Camões leu e aprendeu a admirar os grandes nomes da história de Portugal que possibilitaram a formação de uma grande nação. Sabia muito bem os sofrimentos que a conquista supôs e ansiava uma grande glória para o seu povo. Porém viveu e percebeu o declínio de Portugal. A ascensão e queda da pátria foram experimentadas por Camões e, como homem do seu tempo, o escritor percebeu como ninguém este drama, causando a perplexidade demonstrada no episódio do Velho do Restelo.
O desconcerto nada mais é do que a percepção de que “os fatos não sucederam como eu cuidava”. Camões esperava a fama e a glória de Portugal, mas viu que após a ascensão vem a queda.
Além disso, Camões vivenciou não só o declínio da sua nação, mas do modo como a Europa estava organizada. Se a Idade Média viveu um período de relativa união em torno da Igreja Católica, o século XVI foi o palco da desagregação deste mundo. O cisma de Henrique VIII na Inglaterra, o de Lutero na Alemanha e as guerras na Itália foram cantadas por Camões de forma dolorosa no Canto VII:
O míseros cristãos, pela ventura
Sois os dentes de Cadmo desparzidos,
Que uns aos outros dão a morte dura,
Sendo todos de um ventre produzidos?#
Já no século XIV, a desagregação dava sinais claros, como afirma o historiador Daniel Rops: “A estrutura medieval do mundo, tal como a atitude cultural e espiritual que constituía as suas bases, vinha-se desagregando. A Igreja já não podia identificar-se com o Ocidente; o ideal da Cristandade estava ultrapassado; o próprio principio que assegurava à existência humana a sua unidade revelava fendas profundas, e a autoridade espiritual apresentava-se como um entrave de que era preciso livrar-se.”#
Camões esperava que a sua pátria, ainda católica, fosse a restauradora desta ordem que ruía. Porém, como ele próprio pode perceber, os erros que estavam sendo cometidos nas conquistas estavam pondo a perder esta liderança imaginada pelo poeta.
O desconcerto universal
Camões viveu, portanto, em uma época bastante atribulada. Quando morreu, em 1580, e, principalmente, quando Os Lusíadas foi publicado (1572), ainda não havia uma definição sobre o futuro da sua pátria e da Europa. Portugal atravessaria uma fase de dominação espanhola, a Igreja Católica se reestruturaria a partir do Concilio de Trento, finalizado em 1564, mas com uma longa etapa de maturação das idéias por ele propagadas.
Pode-se dizer que Camões viveu em meio ao desconcerto, religioso, social e também político. Por isso o seu épico cumpre a função de celebrar as conquistas do seu povo, porém, à primeira vista, causa estranheza o questionamento dessas mesmas conquistas. Entretanto, após a análise dos fatos que marcaram a sua época, aqui esboçados, fica claro que Camões compreendeu o seu tempo com a clareza e o lirismo que somente um grande poeta é capaz.
A universalidade da obra não está, evidentemente, nos feitos do seu povo, mas sim porque retrata uma situação própria não apenas do seu tempo, mas de qualquer era: o homem sonha com obras grandiosas, parte em busca das suas conquistas, mas, em contrapartida, nem sempre esse ideal se mostra como a imaginação o retratou. Como a lição dos EUA no Iraque nos ensina, não basta conquistar (ou invadir), mas é preciso saber o que fazer com as conquistas.