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O escritor Edgar Allan Poe deve a sua sobrevivência literária a duas obras, o poema O Corvo, traduzido para o português por dois gênios, Fernando Pessoa e Machado de Assis, e pelo ensaio A filosofia da composição. Ambos têm um ponto comum, pois o ensaio tem em vista explicar o trabalho artístico por meio do poema. Esse artigo irá se ocupar de A filosofia da composição, no qual Poe explicita a sua poética, que por vezes quer ser estética. Essa confusão é importante, pois o autor pretendeu que o seu modo de ver a arte, a sua poética, fosse adotado como estética, ou seja, conceito de arte.
O grande mérito do ensaio de Poe foi ter influenciado uma geração, ou melhor, duas, na França. Baudelaire teceu grandes elogios ao autor de O Corvo: “Nenhum homem jamais contou com maior magia as exceções da vida humana e da natureza” (Baudelaire, Charles. In Allan Poe, Poesia e Prosa - 2 ed. São Paulo, 2000. Ediouro. P. 35); Mallarmé escreveu o poema Lê tombeau d’Edgar Poe e Paul Valéry. Como bem nota T.S. Eliot, o que interessou para Baudelaire foi o homem Poe, para Mallarmé, a técnica do verso e para Valéry, nenhum dos dois, “mas a técnica da poesia, que prende a sua atenção.”(Eliot, T.S. Ensaios Escolhidos. Trad: Maria Adelaide Ramos. Lisboa, 1992. Ed. Cotovia. P. 156.)
Pois bem, antes de analisar a influência desse ensaio na França, é preciso salientar quais os temas tratados por Edgar Allan Poe e que tanta ressonância obtiveram.
Há, em todo o escrito, uma mescla entre romantismo e realismo, preferencialmente para o último. Poe é romântico quando diz que, ao refletir sobre a forma em O Corvo, “meu primeiro objetivo, como de costume, era a originalidade” e ao considerar o efeito da obra causado no leitor como fundamental. Entretanto, a sua visão da obra artística como construção racional totalmente controlada, dista muito da inspiração romântica. Nesse ponto, distancia-se dos românticos e começa a influenciar autores posteriores a ele. Diz Poe sobre O Corvo: “É meu desígnio tornar manifesto que nenhum ponto de sua composição se refere ao acaso, ou à intuição, que o trabalho caminhou, passo a passo, até completar-se, com a precisão e a seqüência rígida de um problema matemático”(Idem, p. 408.). Nada mais anti-romântico. Porém, nem tanto, pois afirma, como citamos, que o “efeito”, ou seja, a emoção, é fundamental na obra de arte, o que o distancia das escolas subseqüentes, como o Realismo e o Simbolismo, por exemplo.
Além de pensar a obra de arte como composição totalmente racional, sem imprevistos, inspirações que alterem o programa traçado de antemão, Poe diz que esse efeito não tem conexão com a verdade. O que entende Poe por verdade? A moeda corrente da sua época, ou seja, a verdade científica, prática, demonstrável por uma experiência. Logo, uma beleza subjetiva, uma impressão, algo que agrada ou desagrada: ponto.
Chegamos, acredito ao ponto no qual Poe mais influenciou a literatura da modernidade: a despersonalização do artista. Este, não buscaria mais a realidade, a experiência vivida, mas causar um impacto sobre o leitor, já que o efeito subjuga a verdade, que poderá até aparecer no poema, mas como uma “agregada”. Qual é então o sentido da arte? A perfeição formal.
Temos então a arte pela arte, diga-se de passagem, não praticada por Poe, mas elaborada por ele e que tanto influenciaria Valéry e parnasianos, como o nosso Bilac. Mas não só a parnasianos, mas também a simbolistas, visto que a afirmação seguinte deve ter levado Mallarmé às lágrimas: “Duas coisas são invariavelmente requeridas; primeiramente, certa soma de complexidade, ou, mais propriamente, de adaptação; e em segundo lugar, certa soma de sugestividade, certa subcorrente embora indefinida de sentido.(...). É o excesso de sentido sugerido, é torná-lo a corrente superior, em vez de subcorrente do tema, que transforma em prosa (e prosa da mais chata espécie) a assim chamada poesia dos assim chamados transcendentalistas” (idem, p. 413.). Nada mais simbolista...
Para além da arte pura, que teve o seu início e seu fim, essa última idéia de Poe foi a que é aceita tranquilamente hoje em dia, a saber: que o poema, ou qualquer obra de arte que declare abertamente o seu sentido é enfadonha, panfletária. O fim de uma poética que pretendia “instruir” teve a sua morte decretada, talvez, possa se dizer, para o bem da literatura, que para ser realista teve de recorrer à experiência pessoal e não a discursos pré-fabricados. Por outro lado, a poesia como mero jogo de palavras, como música, nada além de música – ressalvas feitas ao papel fundamental da musicalidade do verso- teve como conseqüência uma arte que se afastou cada vez mais do ser humano e, é claro, do público, que está menos interessado em processos de composição do que em buscar na arte a imagem do que é ser pessoa.
Atualmente, o processo parece estar se invertendo: a arte deve, fundamental-mente, dizer a verdade, porém, apenas a verdade da lama, do escuro, das trevas: nada de bons exemplos. Sinal de uma época em crise? Bom, esse já é outro assunto...