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Basicamente uma cópia de um capítulo de Mero Cristianismo C.S.Lewis, mas achei esse texto entre meus escritos e resolvi postá-lo.
Ouvimos e falamos diariamente: você gostaria que alguém lhe fizesse o mesmo? Ou, Vamos, você prometeu, etc. O que é interessante neste tipo de frase é que alguém está dizendo que o comportamento da outra pessoa não lhe agrada e, por isso, recorre a um tipo de padrão de comportamento esperado e que o outro também reconhece. É muito difícil que eu diga para você: “Puxa, você prometeu” e ouça de você: “ Que se dane você e o seu padrão de comportamento”. Provavelmente você diria: “sabe o que é ... É que eu estava mal” ou “ É, de fato não pude fazer, me desculpe”. Ou seja, ou vai tentar se justificar por não seguir este padrão ou simplesmente assumir que não o seguiu, mas que está arrependida. Isso é já uma lei moral. Se não fosse assim, não faria nenhum sentido discutir, já que discutir significa provar que o outro está errado, o que seria impensável se não existisse um certo e errado.
Essa lei do certo e do errado costumava chamar-se de lei Natural. A idéia era de que, assim como os corpos são regidos pelas leis biológicas, assim também o ser humano tinha a sua lei. A diferença entre a lei biológica e a lei natural é que a última pode ou não ser cumprida, ou seja, é uma escolha.
Uma primeira objeção contra essa idéia é que diversas civilizações tiveram comportamentos diferentes e, portanto, não há uma lei natural. Isso não é verdade porque, se alguém for estudar a história das civilizações, verá que não há grandes diferenças. (ver livro Abolition of man, de C.S. Lewis). É verdade que ao longo do tempo houve divergências sobre como uma pessoa deveria ser generosa: se apenas com a própria família, se com os conterrâneos ou com qualquer pessoa. Houve divergências se um homem poderia ter uma mulher ou quatro, mas sempre houve a idéia de que não poderia ter a mulher que desejasse.
Outra coisa interessante: a posição de ser contra uma lei natural é contraditória. Por exemplo, a frase: “Isso não é justo!” Não é justo em relação a que? Em relação a Justiça, pela qual essa pessoa espera ser tratada, ainda que diga não haver lei natural.
Bom, mas eu devo confessar a você que, apesar de saber que existe uma lei natural, eu não a cumpro lá muito bem. Quando eu a infrinjo, tenho uma grande tendência a dar desculpas, dizer que isto ou aquilo, que tava com sono, com dor de cabeça, cansado, chateado e uma infinidade de desculpas.
Mas estas desculpas, válidas ou não, só provam, mais uma vez, que nós acreditamos em uma lei natural, porque senão qual o motivo de tantas desculpas por não ter agido corretamente? E essas desculpas acontecem somente quando nos comportamos mal, nunca quando agimos bem.
Concluindo: todos nós temos a idéia de que deveríamos nos comportar de determinada forma e que, mesmo que queiramos, não conseguimos nos livrar dela. Além disso, queremos agir de determinado modo, mas não conseguimos por diversas vezes. Conhecemos a lei natural, mas a infringimos.
Bom, "estou quase concordando -você pode me dizer- Porém, tenho duas objeções: a primeira é a seguinte: isso que você chama de Lei Natural não é apenas um instinto social e que se desenvolveu como os outros instintos que nós temos?"
Tenho que responder que não discordo da existência de um instinto social, mas afirmo que é diferente do que chamo de Lei Natural. Por exemplo: você vai à praia e vê alguém se afogando. Você vai experimentar dois desejos: um, de ajudar, por causa do seu instinto social e o outro, de fugir do perigo, que é o instinto de conservação da vida. Mas, entre esses dois instintos, há algo que diz a você qual impulso você irá seguir. É como a partitura de uma música.
A lei natural mostra-nos qual melodia devemos tocar, e os nossos instintos são apenas as teclas.
Em relação aos instintos, não há nenhum que não deva ser reprimido alguma vez pela lei moral, e nenhum que nunca deva ser estimulado. É um erro pensar que alguns dos nossos impulsos, como por exemplo o amor materno ou o patriotismo, são sempre bons e, outros, como o sexo e a agressividade, são sempre maus. Uma mãe pode sufocar um filho por causa do instinto materno. Um casamento pode entrar em grande crise se o impulso sexual não for alimentado.
Portanto, não há instintos bons e instintos maus. Existe a nota certa a ser tocada no momento certo, e o que nos diz isso é a lei natural.
Bom, mas eu disse que você tinha duas objeções. A segunda é: Isso que se chama lei natural ou moral não é algo incutido na nossa educação, uma convenção social?
A primeira coisa é que a gente pensa que o que aprendemos dos pais é sempre invenção humana. Mas não é assim. Por exemplo, a gente aprende a tabuada na escola. Se uma criança crescesse numa ilha deserta, não a aprenderia. Mas nem por isso a tabuada é uma mera convenção social.
Além disso, se você estuda história, por exemplo, vê as diferentes moralidades seguidas por cada povo e acha uma melhor que a outra. Por exemplo, a escravidão: nós achamos, e temos razão, que foi um progresso o seu fim. Se não houvesse uma moralidade verdadeira, não faria sentido achar que uma é melhor do que a outra. Porque estamos comparando duas moralidades, no caso, uma sociedade não escravista com uma escravista a uma moral verdadeira, ou seja, absoluta.
Portanto, as próprias diferenças que há entre a idéia que as pessoas tem de moral não nos devem levar a um relativismo, mas sim a perceber que há uma lei de comportamento que todos querem seguir.