Em Foco

Blog de atualidades, cultura.

Em Foco

Blog de atualidades, cultura.
<  Novembro 2006  >
S T Q Q S S D
    1 2 3 4 5
6 7 8 9 10 11 12
13 14 15 16 17 18 19
20 21 22 23 24 25 26
27 28 29 30      
Buscar
Terra Blog

Arquivo de: Novembro 2006

29.11.06

O bebê anencéfalo e o milagre da vida

     Enquanto escrevo este artigo, Marcela de Jesus Ferreira está com oito dias de vida. Deve-a a sua mãe, Cacilda. A filha tem anencefalia e está com os dias contados desde a gestação, mas a mãe jamais cogitou abortar.
     Os “bem pensantes” promotores do aborto dizem que carregar um bebê nestas condições é um sofrimento e, segundo esse ponto de vista, inútil, como todo sofrimento. Ao jornal Estado de São Paulo, Cacilda declarou: “Sofrer a gente sofre, mas ela não pertence a mim, mas a Deus, e eu cuido dela aqui”. Profunda frase de uma agricultura, mostrando que a sabedoria é um dom, não uma erudição. Profunda porque sabe que a vida não se encerra com a morte, pois diz “eu cuido dela aqui” e sabe que a sua vocação materna a impele a cuidar de Marcela “aqui”, na Terra. Entende que a filha morrerá, mas “ela pertence a Deus” e a ele voltará.
      Enquanto isso, Cacilda faz o que toda mãe que ama faria, amamenta, cuida e diz que “cada segundo dela é precioso para mim”. Afinal, quem ama fica feliz com a existência de quem ama, não importa em quais condições e por quanto tempo, apenas sabe que dedicará a sua vida para cuidar daquela outra que lhe foi confiada: “Considero a vida dela até agora um milagre muito grande e vou ficar aqui até Deus achar que é a hora dela partir”, falou ao jornal a mãe.
     Em sua simplicidade, Cacilda sabe que um ser humano não é um amontoado de células manipuláveis em laboratório ou alguém que pode ser morto para “não causar sofrimento”. Sofrer, todo mundo sofre e sofre, às vezes, muito. Contudo, como Platão diz pela boca de Sócrates no dialogo Górgias, pior não é sofrer um mal, mas causá-lo, não é ser vítima, mas algoz, pois quem comete o mal se transforma naquilo que comete, enquanto quem sofre o mal, tem a chance de engrandecer-se, como próprio Sócrates ao ser obrigado a tomar cicuta.
     Como não tenho a simplicidade de Cacilda, citarei mais exemplo literário. No genial livro “Os irmãos Karamazov”, Dostoievski descreve três irmãos separados na infância e que se reencontram quando estão todos na casa dos vinte anos. Dimitri é um sentimental que sabe não ser uma boa pessoa, mas não consegue evitar seus erros, Aliocha, o mais novo é uma boa pessoa, ainda ingênua, mas luta pelo bem e Ivan é inteligente e revoltado. Um fato importante para a narrativa é a ação de Ivan. Ele não comete crime algum, mas alicia um empregado da casa a cometê-lo. Com argumentos “intelectuais” impele um pobre homem ao mal, revelando assim o seu ódio.
     Contei toda essa história porque penso que aqueles que com todo o conhecimento médico e mesmo perante casos como esse defendem o aborto, parecem-me comportar-se como Ivan. No ano passado, uma mãe foi autorizada a fazer o aborto de um bebê anencéfalo. Disse o juiz: "gestação infrutífera ora impugnada trará riscos à própria saúde da gestante, que poderá sofrer por toda sua vida dos danos, senão os físicos, dos prejuízos psicológicos advindos do fato de carregar nove meses criança em seu ventre fadada ao fracasso" (Folha, 23/12/2005). Vejam a argumentação: “gestação infrutífera”, como se a vida só valesse a pena se perfeita. Além disso, quem realmente quiser saber sobre os traumas de uma mãe, visite o site www.rachelsvineyard.org, pertencente a uma associação que dá apoio a mulheres que abortaram. Recomendo a seção: www.rachelsvineyard.org/postabortion/stories.htm. Também deve-se pensar que o bebê anencéfalo pode ser um doador de órgãos e salvar outras vidas.
      Por outro lado, o livro de Dostoievski acaba celebrando a vida por meio de Aliocha, que confia, fundamentalmente, nas crianças.

  • criado por  Eduardo Gama criado por Eduardo Gama
  • Postado em 11:51:11

28.11.06

Os integrantes do Conselho de Ética do Senado

Após a notícia do site www.congressoemfoco.com.br, resolvi postar o nome dos senadores que compõem o Conselho de Ética, visto que os meios de comunicação dizem que os sanguessugas foram absolvidos, mas não dizem por quem.

Conselho absolve senadores citados na CPI


Os três senadores acusados pela CPI dos Sanguessugas de envolvimento com a máfia das ambulâncias foram absolvidos hoje (28) pelo Conselho de Ética do Senado. Serys Slhessarenko (PT-MT) e Magno Malta (PL-ES) receberam parecer contrário à cassação. Já o relatório do processo contra o ex-líder do PMDB Ney Suassuna, que recomendava a perda do mandato, acabou derrubado pelos integrantes do órgão.
O desfecho do peemedebista foi o mais simbólico. O relatório de Jefferson Peres (PDT-AM) nem chegou a ser votado. Os parlamentares aprovaram um texto alternativo, do atual líder do PMDB no Senado, Wellington Salgado (MG), que prevê somente uma advertência verbal, a ser lida na próxima reunião do órgão. O parecer foi acatado por 12 votos a dois – além de Peres, somente Demóstenes Torres (PFL-GO) foi contrário – e dispensou a análise do relatório principal.
O parecer ao processo de Serys foi votado em seguida. Embora tenha sido apresentado hoje, o texto não trouxe surpresas. Desde o depoimento da parlamentar no Conselho, o relator do caso, Paulo Octávio (PFL-DF), já sinalizava a tendência de absolver a petista. “Não há provas da participação da senadora e nem depoimento dos Vedoin contra ela, por isso meu parecer é conclusivo pelo arquivamento”, disse. (leia mais)
O último a ser julgado foi Magno Malta. O relatório de Demóstenes Torres, que sugeriu a absolvição, foi acatado por 12 votos a favor e nenhum contrário. Embora tenha encontrado indícios contra o parlamentar do PL, o pefelista descartou a cassação devido à falta de provas.
“Como Bentinho, tenho acompanhado um caso intrigante, que postumamente a Machado rendeu diversas versões, muitas convincentes, mas não posso afirmar com 100% de certeza que Capitu fraquejou e foi dar em praias escobarianas”, disse o relator, numa analogia com o romance Dom Casmurro, de Machado de Assis. (...). (Diego Moraes)

Titulares

Bloco Parlamentar da Minoria 

Demóstenes Torres (PFL), Sérgio Guerra (PSDB), Heráclito Fortes (PFL) Juvêncio da Fonseca (PSDB), Paulo Octávio (PFL), Antero Paes de Barros(PSDB),

 PMDB Wellington Salgado de Oliveira, João Alberto Souza, Luiz Otávio

BLOCO DE APOIO AO GOVERNO (PT/PL/PSB)

Sibá Machado (PT), Ana Júlia Carepa (PT), Fátima Cleide (PT),

PDT Jefferson Péres, PTB Mozarildo Cavalcanti, Corregedor do Senado

(Membro nato – art. 25 da Resolução nº 20/93) Senador Romeu Tuma (PFL/SP)

 

  • criado por  Eduardo Gama criado por Eduardo Gama
  • Postado em 20:31:12

27.11.06

A tragédia grega e o drama moderno - I

O crítico George Steiner escreveu que é impossível para o homem suportar a tragédia absoluta. Por tragédia absoluta, chama a obra que “proclama, axiomati-camente, que o melhor mesmo é não nascer ou, sendo isso inevitável, morrer cedo” (Nenhuma Paixão Desperdiçada, Record, pág. 139).
É o caso de Hércules na obra de Eurípides. Após realizar os doze trabalhos, o herói volta para casa e vê que seu pai, sua mulher e filhos estão sendo ameaçados de morte pelo rei. Porém, não é o rei que acaba por matá-los, mas o próprio Hércules que, por inveja dos deuses, é tomado pela loucura. Quando cai em si, nota que poupou apenas o pai: “Ai de mim! Por que poupo então a minha vida/ já que sou o assassino de meus filhos tão amados? (Héracles, pág.137, trad. Cristina Rodrigues Franciscato)
Em Édipo Rei, de Sófocles, o protagonista repete quase literalmente as palavras de Steiner: “(...) Se então morresse, não causaria tantas aflições aos que me são caros e a mim próprio”, diz referindo-se ao seu nascimento que poderia não ter acontecido. (Tragédias do Ciclo Tebano – Livraria Sá da Costa, pág. 61 – trad. Pe. Dias Palmeira) Os pais de Édipo, Laio e Jocasta, desobedeceram aos deuses e tiveram um filho. Por isso, tanto os pais quanto o filho foram amaldiçoados. É difícil achar uma razão para a infelicidade de Édipo além da desobediência dos seus pais. Pode-se dizer que Édipo tentou fugir da vontade dos deuses, porém, não foi por desobediência, mas para evitar matar ao próprio pai. A única falha que lhe pode ser atribuída é a mesma que em determinado momento o Coro lhe diz: “(...) porque facilmente tropeçam os que tomam uma resolução precipitada”. (idem, pág. 30)
Édipo, por diversas vezes, precipita-se. Porém, todos esses erros causam compaixão, pois não há como pensar que, no lugar de Édipo, qualquer pessoa faria o mesmo, ou, quem sabe, até pior. Pensamos que, apesar de não ser perfeito, não merece tamanha desgraça.
Édipo Rei é parte de uma saga, chamada “O Ciclo Tebano”. A continuação da primeira tragédia, Édipo em colono, esclarece em parte a razão do destino trágico do protagonista. Já na velhice, Édipo tem sua reputação restaurada. “Enquanto no Rei Édipo o protagonista é quase divinizado pelos homens, mas odiado pelos deuses, aqui (Édipo em Colono) dá-se o contrário: está reconciliado com os deuses e só os homens lhe disputam a sua grandeza” (idem, pág. 52 da Introdução). A última fala de Hércules também é esclarecedora, pois aponta uma mudança de atitude em relação à vida: “Aquele que riqueza ou força mais do que/ bons amigos deseja possuir pensa mal” (op.cit. pág. 155). Hércules sempre conquistou glórias à base da força. Nisso residia o seu próprio ser e o fazia presunçoso a ponto de pronunciar sem temor o nome de deuses que todos tinham medo. Além disso, a sua própria força foi motivo da sua queda: matou muitos inimigos, mas matou aos que mais amava.
Tanto Sófocles como Eurípides não podiam esclarecer uma questão essencial da vida humana: o sentido do sofrimento. Sófocles é o que se aproxima mais da questão, pois vislumbra a glória como causa de queda e a queda como redenção. Após a dor, segundo Sófocles, o homem “cai em si e se submetem à vontade soberana; e, neste caso, expiada a culpa, o paciente é moralmente reabilitado”(op.cit. pág. 51 – introdução). Entretanto, a vontade dos deuses é sempre arbitraria, sem sentido. Resta ao homem obedecer cegamente ou sucumbir. Os deuses não são temidos, causam medo. Porém, trata-se de uma era pré-cristã.

Macbeth e o interior do homem

Com o cristianismo, a situação já não é a mesma. O homem já não se dirige a um deus desconhecido, ou apenas conhecido pela sua arbitrariedade. A ação concentra-se no homem, no seu interior. O homem tem como guiar as suas ações visando o bem. Teme apenas as suas más inclinações.
Macbeth, personagem de Shakespeare, mata o rei para tomar-lhe a coroa. Para cometer tal crime, em primeiro lugar despreza a lei moral: “Se o assassinato pudesse manear as suas conseqüências e agarrar, com o próprio fim, seu sucesso! Se esse um golpe pudesse ser o tudo necessário para o fim de tudo! Aqui, e somente aqui, nesta vida, um tempo que não é mais que um banco de areia nos mares da eternidade, abriríamos mão da próxima vida (Tragédias, Shakespeare – trad. Beatriz Viégas-Faria, pág.163). Em seguida, despreza a lei dos homens: “Primeiro, sou dele parente e súdito, duas fortes razões contra tal ato; depois, como seu anfitrião, devo fechar meus portões a seu assassino, e não empunhar eu mesmo a adaga” (idem). O último sopro para a queda é dado por Lady Macbeth, que o incita ao orgulho, chamando-o de covarde e, como a um Herodes, conclamando-o a realizar o ato que havia jurado fazer. O fim do primeiro ato mostra como Shakespeare se concentra no interior do homem: “Aquilo que sabe o coração falso, a cara falsa deve esconder” (idem, pág.166).
Outra característica da tragédia depois de Cristo é a esperança, como nos relata Shakespeare em Macbeth. Após a morte de Macbeth e de sua esposa, Malcom, legítimo herdeiro do trono, diz que retribuirá o amor dos súditos implantando uma nova era: “Isso, e tudo o mais necessário que é de nossa obrigação, pela graça da Graça Divina, será cumprido na justa medida, hora e lugar” (idem, pág. 245).
Aos deuses desconhecidos ou ingratos, Shakespeare chamou-os de vícios, aos bons, virtudes.

  • criado por  Eduardo Gama criado por Eduardo Gama
  • Postado em 14:39:23

A tragédia Grega e o drama moderno II

A tragédia moderna

George Steiner diz que a tragédia absoluta é quase impossível porque é insuportável. Nenhum ser humano consegue observar o nada existencial, por exemplo, em uma tragédia de cinco atos, diz o crítico. A tragédia absoluta nos últimos séculos foi realizada de modo fragmentário: “A peça teatral, conto kafkiano, o tratado niilista ou a apologia do suicídio podem ser obras formalmente completas. Continuam a ser, entretanto, fragmentárias. Uma obra dessas não pode ser extensa, porque a visão ali representada é insuportável” (op.cit. pág. 140). Conclui afirmando que, enquanto a tragédia absoluta dirigia-se a uma divindade mesquinha, a tragédia moderna, que chama de drama trágico, dirigi-se a uma divindade abstrata, no sentido etimológico de retirada, ausente.
Esta divindade abstrata acontece por duas razões: ou porque o homem “desaprendeu” a divindade, ou seja, não reconhece porque de fato nunca a conheceu, ou porque recusa a sua presença. O Gregório, de “A Metamorfose” parece-me pertencer ao primeiro caso, enquanto um Ivan Karamazov, de “Os Irmãos Karamazov”, ao segundo. Ivan discute sobre Deus, e acaba por fazer como o seu grande inquisidor, que pede a Cristo que saia de perto dele. Já Gregório vive o absurdo. Porém, como diz Steiner, em Kafka, “a ausência é a possibilidade mais radical da presença de Deus” (op. cit. p. 137). Ou seja, se a vida é tão absurda e o homem procura dar-lhe um sentido, ou é porque está louco ou porque de fato há um sentido na vida.
A maior tragédia moderna, portanto, não é lidar com deuses desconhecidos, ora bons, ora maus e sempre arbitrários. O homem moderno talvez nunca tenha tido tanto poder de escolha, de exercer a liberdade (o que não significa que é livre).
Optamos por chamar liberdade à capacidade de negar ou ignorar. Não pensamos como Shakespeare. Já não chamamos os deuses maus de vícios e os bons de virtudes, porque entendemos, ou queremos pensar, que vícios e virtudes existem na medida em que não há adesão pessoal à causa defendida. Acreditamos que não há causa a ser defendida, mas apenas uma opção, que pode ser revogada no momento que eu bem entender. Ou seja, não há nada que realmente valha a pena senão o momento, a felicidade como um estado de espírito, ou melhor, de sentimentos.
O drama moderno, já não a descrença orgulhosa do século das luzes, nem a crença um tanto pueril na vontade arbitrária dos deuses, é a crença em si mesmo como próprio deus. As revoluções do século vinte mostraram do que o homem é capaz.
Essa descrença em tudo que é alheio só poderá ser extinta se olharmos para o que há de mais humano e frágil, como nos diz o poeta Jorge de Lima:

Olhemos os olhos das crianças
para repousar nestes céus sem pensamento
a angústia de procurar pátrias distantes
e as constelações que já morreram.
(em Poesias Completas – vol.III, José Aguilar, pág.147)

  • criado por  Eduardo Gama criado por Eduardo Gama
  • Postado em 14:37:34

23.11.06

Cinco poemas inesquecíveis - Brasil/Potugal

Se quiser enviar a sua lista, fique à vontade.

Lembrados na hora:

1- Sôbolos rios que vão... - Camões

2 - Tabacaria - Fernado Pessoa

3 - E agora, José - Carlos Drummond de Andrade

4 - A Virgem Maria - Manuel Bandeira

5 - Poema de Natal - Vinícius de Moraes

  • criado por  Eduardo Gama criado por Eduardo Gama
  • Postado em 09:20:41