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Arquivo de: Outubro 2006, 24

24.10.06

A escolha de Fausto - as artes plásticas hoje



*Sérgio Lucena

As características de cada época, em algum momento no futuro, revelam as demandas do homem em seu tempo. Isto em todas as esferas, desde o fisiológico, passando pelo psicológico e filosófico até o espiritual. A história nos revela assim os múltiplos aspectos que compõe, em sua complexidade, a jornada da espécie humana rumo à consciência.
Tudo leva a crer, que estamos a viver um momento significativo, de grandes constatações que apontam para a inviabilidade da nossa presença neste planeta, caso o modelo de gerencia dos recursos naturais mantenha a mesma orientação. Esta questão me remete a um contexto simbólico muito pertinente, qual seja: a encruzilhada, ou a cruz.
Nosso empenho, desde as cavernas, fora o de domar a natureza, "civilizando-a." Constatamos hoje, apenas a nossa arrogância e prepotência, em nos julgarmos capazes de melhorar o mundo a partir da nossa ignorância em relação a ele e a nos mesmos.
Entretanto não se pode negar a importância deste empenho. Ao contrario, a isto devemos, inclusive, a perspectiva da mudança de rota, pois a consciência que dispomos da realidade hoje, é fruto deste esforço. Alem do que, ter consciência é o que nos faz humanos.
Esta reflexão introdutória vem para situar minhas considerações à realidade da Arte em nossos dias, tendo o foco na Arte produzida nos países ditos em desenvolvimento a exemplo do Brasil. Considero ter sido eleita a "Arte Conceitual" para atender, nestes paises cuja complexidade cultural é forte, a um projeto eficaz de domínio pela alienação. Esta ação se dá por intermédio e financiamento das instituições culturais, governamentais e privadas, o que lhe garante o caráter oficial.
O objetivo é a implantação de padrões internacionais de comportamento, eliminando a diversidade e peculiaridades regionais, obliterando o conceito de nação, em atenção a um modelo de consumo que garanta a dominação por dependência econômica e tecnológica. Dito isto, parto para a minha reflexão sobre esta consideração.
É pertinente aqui lembrar as palavras de Tristan Tzara, importante pensador Dadaísta, movimento precursor da Arte Conceitual: "Dada é este. Dada é aquele... De qualquer forma é caca..." Este gênero de humor parece desconhecido da atual geração, e tudo parece ter se tornado racional e dogmático, conduzindo o termo "Conceitual" a um paradigma. Ante a expressão "Arte Conceitual", pode-se achar, por exemplo, que a arte Gótica seja desprovida de conceito. Ocorre que não há nem nunca houve Arte sem conceito. Toda expressão, cuja elaboração material e formal suscita a um pensamento de cunho filosófico e espiritual, é conceitual.
Assim que Marcel Duchamp compreendeu que conseguira espalhar as suas idéias novas, renunciou aristocraticamente a este jogo e afirmou, profeticamente, que outros jovens se especializariam no jogo de xadrez da arte contemporânea; depois, começou ele próprio a jogar xadrez. Naquela época, haviam em Paris um reduzido numero de pessoas que compreendiam os ready-made de Duchamp, hoje são milhões e milhões em todo o mundo, e parece que alcançamos o momento em que todos os objetos existentes são ready-made, ou seja, nada mais é ready-made. Curioso notar que a atitude moral do ready-made consiste em não tocar a realidade, e nisto estava à força e o poder que atirou a pá de cal numa estrutura acadêmica de arte que não mais correspondia à demanda da época.
Porém, a atitude revolucionaria foi encampada pela nova mentalidade que surgia impulsionada pelo desenvolvimento industrial do pós-guerra. O modelo de produção e consumo de massa. Não é a toa que estamos diante hoje, a uma produção de arte cuja matriz seja a mesma que encontramos na publicidade. A idéia "genial", o espetáculo, e a efemeridade. A arte deixa de ser um instrumento de reflexão da condição humana em sua época, para tornar-se um instrumento de validação, por empatia, do modelo industrial de consumo.
O maior de todos visionários deste conceito, Andy Warhol, proferiu: "no futuro todos serão famosos por quinze minutos." É a democratização da arte a nos tornar todos em artistas. A experiência individual, capaz da aquisição pessoal de um novo patamar de consciência, a partir da reflexão ante o objeto de arte, é substituída pela participação coletiva, interativa, muitas vezes física do objeto de arte.
É a dessacralização do conceito de Arte como portal de acesso, ao individuo, a novos planos espirituais, o que requer contemplação e reflexão, em troca do acesso rápido, fácil e eficaz aos novos ícones coletivos forjados pela sociedade de consumo como a lata de sopa Campbell's ou Marilyn Monroe. Morre o individuo reflexivo e analítico, e surge o homem de massa identificado e integrado pelo ícone industrial, ao conceito imposto à época. Também agora ele é um produto, feliz, igual a tudo e a todos.
A lei que rege este conceito é a mesma que vale tanto para o sabor padrão do hambúrguer Mac Donald's, quanto para um significado estético. Qual seja: a homogeneização dos valores. Creio que nem Stalin, o mais totalitário governante comunista, foi capaz de vislumbrar uma cultura de massa tão perfeita quanto a que estamos a viver.
Entretanto há sempre um "novo" mundo que, constantemente, se abre ante nossos olhos, parcialmente revelado pela Ciência, pela Arte e pela Religião, o qual é infinito e abriga imensa riqueza de imagens que foram entesouradas e organicamente adensadas por milhões de anos de desenvolvimento vivo. Essas imagens não são sombras pálidas, mas condições poderosas da alma que talvez possamos entender mal, mas jamais roubar-lhes o poder, negando-as.
As recentes Bienais no Brasil e no mundo são para mim uma oportunidade de reflexão, pois nelas vejo a encruzilhada diante a qual a Arte se encontra: Atender à demanda espiritual do homem em sua época, ou se eximir deste compromisso histórico em favor da alienação confortável. Faz-me pensar no drama do Fausto...

* Sérgio Lucena é artista plástico. Expôs em vários países, a exemplo da Alemanha - onde viveu como bolsista da Deutch-Brasilienische Kulturelle Vereingung in Berlin - Estados Unidos, Dinamarca e Portugal, e em várias capitais brasileiras. Atualmente está radicado em São Paulo, capital. Informações: www.sergiolucena.net. O artigo "A escolha de Fausto" foi escrito originalmente para o jornal da Universidade do Estado de São Paulo - Unespe, a pedido do editor e crítico de arte Oscar D'Ambrosio.

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  • Postado em 16:51:43