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O fato é que a pluralidade de interpretação, longe de ser um defeito e uma desvantagem, é o sinal mais seguro da riqueza do pensamento humano, tanto é verdade que nada é mais absurdo do que querer conceber a interpretação como única e definitiva (...).
Luigi Pareyson
por Eduardo Gama 1. Gregório para além da Bahia
Difícil, senão impossível, pintar um retrato do primeiro grande poeta brasileiro. Sabe-se a data do seu nascimento, 1636, mas se tem dúvidas acerca do ano de sua morte, talvez, 1696. Após o seu falecimento, o poeta ficou praticamente esquecido. No século seguinte, porém, o licenciado Manuel Pereira Rabelo publicou uma biografia e as obras atribuídas a Gregório. No fim do século XIX o poeta começou a ganhar a atenção dos críticos e, por fim, o século XX discutiu a sua obra.
Discutiu à maneira do século XX, ou seja, em lutas ideológicas. Gregório foi para uns, o imoral e, para outros, o homem que lutava contra a ordem estabelecida. Mais recentemente, alguns pensaram ser nenhum dos dois, apenas um homem do seu tempo.
Essa última afirmação parece ser a mais coerente, pois qualquer homem é homem do seu tempo. Reflete, portanto, se é um literato, os modismos do seu tempo. Em Gregório percebe-se muito bem esse fato: escreveu sátiras, poemas religiosos e eróticos, como era comum nos grandes nomes de sua época, tais como os poetas espanhóis Góngora e Quevedo. Logo, como afirma o professor João Adolfo Hansen em A sátira e o engenho – Gregório de Matos e a Bahia do século XVII, é impossível definir qualquer traço expressivo marcante na obra do poeta baiano. Segundo parece dizer o autor, é necessário analisar as condições em que os poemas foram escritos para se compreender Gregório. Deixe-se de lado o homem e o significado da obra e parte-se para o estudo da época e, fundamentalmente, do estilo predominante. Assim se terá a chave para a análise da obra.
Se é importante ressaltar certas características de época para compreender melhor a obra, como por exemplo o conceito de plágio, Hansen é preciso quando diz que românticos, concretistas e tropicalistas pretenderam moldar um Gregório de acordo com o seu tempo e a sua ideologia, sem levar em conta que Gregório não queria destituir os poderes estabelecidos através de seus versos, mas satirizar esses poderes, visto que a prática era comum no século XVII. Parece que o autor quer afirmar que é vã a busca de qualquer interpretação da obra, salvo a histórica.
O grande perigo dessa visão é confinar o poeta ao seu século. Levando às últimas conseqüências esse modo de pensar, A Divina Comédia seria fruto direto do meio cristão em que foi composta e pouco importa saber se Dante aceita as convicções expressas na obra; também Camões teria se utilizado do platonismo vigente como mera convenção renascentista e a mensagem da sua poesia é irrelevante ou inexistente, pois reflete as idéias do seu tempo. O filósofo Luigi Pareyson define o pensamento histórico, em contraposição ao revelativa, da seguinte forma: “Para encontrar o verdadeiro significado do discurso, é preciso considerar o pensamento não por aquilo que diz, mas por aquilo que trai, ou seja, não pelas suas conclusões explícitas, pela sua coerência racional, pela universalidade dos seus conceitos, mas pela base inconsciente que aí se exprime, isto é, a situação, o momento histórico, o tempo, a época.” (Verdade e Intermpretação, p.13)
Certo, muitos nos meios acadêmicos pensam dessa forma. Contudo, gostaria de expor uma visão diferente, que leva em conta as marcas históricas de uma obra, mas que transcende essa época, visto que a obra de arte tem como objetivo o homem. Não há dúvida que Gregório de Matos é um artista do seu tempo e utilizou-se das convenções literárias da sua época. Porém, acredito que Gregório é ainda hoje lido e estimado pelos leitores de poesia porque sua poesia insere-se na tradição brasileira.
Novamente um conceito – tradição - bastante equívoco. Entendo por tradição não “a transmissão de um resultado histórico, mas fundamentalmente escuta do ser, isto é, diálogo com o passado somente enquanto é reclamo à origem; e atravessa os séculos não porque esteja colocada no tempo, mas porque está inserida no próprio coração do advento temporal do ser. (...).” (idem, 46-47) A saber: não acredito que Gregório esteja inserido em uma tradição apenas porque escreveu no Brasil no século XVII e desde o século XIX faça parte da nossa história da literatura, mas sim porque a sua poesia, seguindo as regras poéticas do tempo, revelou algo sobre o ser humano. O passado aqui é visto “não tanto como anterior ao presente como vizinho do ser.” (idem, 47)
2. Gregório é tudo isso?
Essa pergunta, informal e provocativa foi posta com um sentido: Gregório pode ser visto como um poeta que revelou o ser em sua obra, que com sua vida nos transmitiu um ponto de vista sobre a verdade e por isso seja válido o estudo da sua obra hoje em dia?
É preciso uma análise, não tanto da sua vida, pois os documentos são mínimos e tendenciosos, mas sim pela sua obra. Como ainda não foi feita - e dificilmente será possível- uma edição da poesia de Gregório em que a autoria de todos os poemas seja comprovada, tomaremos como base a compilação de James Amado, Gregório de Matos: Crônica do viver baiano seiscentista. Para análise da sua poética, tomaremos como base o excelente trabalho de Segismundo Spina.
3. Tentativa de interpretação
Como é conhecido, Gregório de Matos possui três facetas: o religioso, satírico e o lírico.
Das três, a última não legaria ao poeta a fama que hoje tem, visto ser, digamos, razoável. Isto porque o seu maior defeito torna-se evidente nesta parte: a imagética. De fato, Gregório não é um poeta muito imaginativo, como grande parte da literatura brasileira. Basta ver que não tivemos grandes livros do gênero fantástico, como na Europa. Além disso, o poeta baiano não realizou, na sua lírica, mais do que repetir o exaurido ideário renascentista, a la Camões, como no Namorado, o poeta fala com um arroio. O seu melhor poema lírico talvez seja A um passarinho cantando.
Não há dúvidas, mesmo entre os críticos, de que o melhor da sua produção concentra-se nos poemas satíricos. Ainda que pese o franco imoralismo em diversas poesias, muitas guardam o tom crítico bem humorado que ainda é tipicamente brasileiro. Como diz Spina: “A sátira foi a poesia por excelência praticada pelo poeta baiano; foi satírico acima de tudo, e nesse gênero ninguém o excedeu talvez em toda a América. (59)” Um dos melhores exemplares é “Aos caramurus da Bahia”, que vale a pena transcrever os últimos dois tercetos:
Alarve sem razão, bruto sem fé,
Sem mais leis que as do gosto, quando erra,
De Paiaiá tornou-se em abaité. (de pagé fez-se horrível, medonho. Termo tupi)
Não sei onde acabou, ou em que guerra:
Só sei que deste Adão de Massapé
Procedem os fidalgos desta terra.
Politicamente incorretíssimo, algumas vezes indesculpavelmente obsceno e racista: estamos no terreno no qual Gregório foi mestre. Na sátira, um outro defeito da sua poesia abranda-se, a saber: o exagerado uso de adjetivos, que tenta suprimir a ausência citada anteriormente, de imagens. Mas na sátira o adjetivo é fundamental.
Não é possível esquecer, dentre as sátiras, o poema Reprovações, composto em quadras de versos com sete sílabas, a redondilha:
Se andais devagar,- mimoso,
Se depressa, sois cavalo,
Mal encarado, se feio,
Se gentil, efeminado.
Como diz Spina, “ninguém melhor do que Gregório teria pintado os rumores da eterna maledicência”(195).
Contudo, é ainda na poesia religiosa que Gregório é mais conhecido. Versos como “Pequei senhor; mas não porque hei pecado...” (A Jesus Cristo Nosso Senhor) estão presentes em todas as antologias. É na poesia religiosa que o poeta é mais “barroco”, pois os jogos verbais, anadiploses (figura de linguagem que veremos a seguir) e antíteses aparecem com maior freqüência, como no poema nos últimos dois tercetos desse famoso poema:
Arrependido estou de coração,
De coração vos busco, dai-me os braços,
Abraços, que me rendem vossa luz.
Luz, que claro me mostra a salvação,
A salvação pretendo em tais abraços,
Misericórdia, amor, Jesus, Jesus!
Anadiplose: todos os versos têm início com a última palavra do verso anterior, salvo o último e o primeiro, logicamente.
Alguns falam na suposta falta de sinceridade dos poemas religiosos de Gregório, o que é difícil se não impossível de se saber. Fato é que, ao generalizar situações – Arrependido estou de coração- , nos dá essa impressão. Pode ser, mas basta o poema Ao menino Jesus, que traz a explicação: de Nossa Senhora das maravilhas da Sé, quando os hereges o fizeram em quartos, que foram achados por várias partes imundas, fez o autor dois sonetos, este o segundo da sacra, o qual reproduzimos integralmente a seguir:
Entre as partes do todo a melhor parte
Foi a parte, em que Deus pôs o amor todo
Se na parte do peito, o quis pôr todo,
O peito foi do todo a melhor parte.
Parta-se pois de Deus o corpo em parte,
mas a parte em Deus ficou o amor todo;
Por mais partes, que façam deste todo
De todo fica intacta essa só parte.
O peito já foi parte entre as do todo,
Que tudo mais rasgaram parte a parte;
Hoje partem-se as partes deste todo:
Sem que do peito todo rasguem parte,
Que lá quis dar por partes o amor todo,
E agora o quis dar todo nesta parte.
Difícil, enfim, contestar a sinceridade de um poeta que, ao ver uma estátua do Menino Jesus despedaçada lembra-se da Eucaristia e compõe esse belo poema, tanto no conteúdo como na forma, pois o soneto é muito oportuno para a exposição de temas profundos.
Outro poema em que podemos perceber a facilidade com que o poeta lidava com as forma é Salve Rainha a Virgem Santíssima, composto por quadras de sete versos, sendo que o último verso de cada quadra termina por uma parte da oração: “Sois divina formosura/ sois entre as sombras da morte/o mais favorável Norte/ e sois da vida doçura”.
4. Conclusão
Analisar a poesia de Gregório leva à conclusão de que se trata de um dos grandes poetas brasileiros. Embora concordemos com a opinião do crítico Antônio Cândido exposta em A Formação da Literatura brasileira, o poeta baiano merece ser incluído em um estudo dos poetas brasileiros. Apesar de não haver uma literatura nacional, havia já um poeta nacional.
O uso excessivo de gírias e termos próprios do seu século fez com que muito da sua poesia envelhecesse. Além disso, diversos poemas são somente variantes dos grandes nomes de então, como Gôngora e Quevedo. Entretanto, como pensamos ter sido exposto ao longo dessas considerações, Gregório de Matos legou à poesia nacional bons poemas sacros e satíricos.