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Por Eduardo Gama, mestrando em Literatura pela USP.
O ano é 1880. Machado de Assis publica Memórias Póstumas de Brás Cubas em capítulos na “Revista Brazileira”. A nossa literatura, embora ainda não percebesse, já era universal, pois tinha o seu grande escritor. Com o correr dos anos, o enigma parece ainda mais obscuro: como, após alguns romances medianos, “surge” do nada um Machado de Assis? Certamente essas reflexões não pretendem solucionar o que é, de todo modo, insolúvel. Argumentaremos que não só o gênio em Machado era latente como o romancista tinha consciência desse fato.
Voltemos para 1872. Machado acaba de publicar Ressurreição, seu primeiro romance. Sobre a obra, escreve no prefácio: “Não quis fazer um romance de costumes; tentei o esboço de uma situação e o contraste de dois caracteres; com esses simples elementos busquei o interesse do livro”. Não se trata, como sabemos, de uma grande obra, “entretanto – ressalta Lúcia Miguel Pereira –, esse livro fraco já revela a principal característica de Machado como romancista, característica que irá aos poucos separando inteiramente da concepção romântica da ficção: a predominância de problemas psicológicos” (Machado de Assis, p. 141). Logo em sua estréia na ficção, Machado demonstra querer outros caminhos que os seguidos pelos romancistas do seu tempo. Porém, ainda não o trilhará, visto que seus três romances seguintes, melhor elaborados que o primeiro, ainda se ressentem de profundidade: “O jogo de caracteres se reduz ao típico e nunca chega ao pessoal nesses romances”, afirmou Barreto Filho em Introdução a Machado de Assis (1980, p. 89). É possível dizer que em sua primeira obra de ficção, Machado de Assis intuiu a sua arte, mas ainda era incapaz de realizá-la.
Passemos para o ano seguinte, 1873, onde iremos nos deter. Na vida de Machado, tudo corre bem: tem um bom e jovem casamento, um novo emprego na Secretaria de Agricultura e uma reputação literária. Devido a esta última, escreve um ensaio para uma revista sediada em Nova Iorque, no qual comenta a atual situação da literatura brasileira. Intitulado “Instinto de Nacionalidade”, seria um excelente artigo somente pelas observações que tece sobre a literatura nacional, mas acreditamos que objetivo dessas reflexões é ainda mais profundo: Machado anuncia MACHADO. Para demonstrarmos com maior clareza nosso ponto de vista, melhor será faz uma exposição das idéias contidas no ensaio.
Nas primeiras linhas explica a razão do título, comentando que a literatura brasileira busca uma feição própria: “Meu principal objeto é atestar o fato atual; ora, o fato é o instinto de que falei, o geral desejo de criar uma literatura mais independente.” Independência de que ou de quem? De acordo com o pensamento de Machado, a literatura brasileira começou a ganhar feição própria com Santa Rita Durão e Basílio da Gama, chamados de “precursores da poesia brasileira”. Com a Independência do Brasil, em 1822, o Romantismo brasileiro busca uma expressão tipicamente nacional, que represente a nossa identidade como nação. Para tal, recorre à figura do índio, sendo o grande nome desta geração, intitulada “indianista”, Gonçalves Dias (cita também Iracema, de José de Alencar). Passada esta geração, houve uma reação a esse espírito, tentando apartá-la do elemento indígena. A esse respeito, qual era a opinião à época em que Machado escreveu o ensaio? Diz o autor de Dom Casmurro:“Compreendendo que não está na vida indiana todo o patrimônio da literatura brasileira, mas apenas um legado, tão brasileiro como universal, não se limitam os nossos escritores a essa só fonte de inspiração. Os costumes civilizados, ou já do tempo colonial, ou já do tempo de hoje, igualmente oferecem à imaginação boa e larga matéria de estudo.”
Na segunda parte do ensaio, Machado reflete especificamente sobre o romance, gênero no qual viria a ser mestre. Desde o início, critica, do seu modo particular, ou seja, batendo com luvas de pelica, as obras em prosa do Brasil de então:
“Não faltam a alguns de nossos romancistas qualidades de observação e de análise, e um estrangeiro não familiar com os nossos costumes achará muita página instrutiva. Do romance puramente de análise, raríssimo exemplar temos, ou porque a nossa índole não nos chame para aí, ou porque seja esta casta de obras ainda incompatível com a nossa adolescência literária.”
De um modo sutil, mas incisivo, diz que o Brasil está passando por sua adolescência literária, o que é uma crítica profunda a uma literatura que se julgava adulta. O que falta para que amadureça? Um tipo de romance que descreva os personagens com profundidade e que não tenha como único assunto a descrição dos costumes, preocupada em demasia com o que chamou de “a cor local”, os seja, o pitoresco do nosso país:
“Esta casta de obras, conserva-se aqui no puro domínio de imaginação, desinteressada dos problemas do dia e do século, alheia às crises sociais e filosóficas. Seus principais elementos são, como disse, a pintura dos costumes, e luta das paixões, os quadros da natureza, alguma vez o estudo dos sentimentos e dos caracteres; com esses elementos, que são fecundíssimos, possuímos já uma galeria numerosa e a muitos respeito notável”
Relembremos que Machado escreveu esse ensaio aos 33 anos, sete anos antes do “grande estalo”, do “despertar” do gênio. Percebe-se, na citação anterior, que o escritor já compreendia o que era um grande romance. Poderia ser dito que se tratava de um crítico agudo ou mesmo genial, contudo, não só criticou com maestria a ficção nacional, como a elevou a um nível universal. Portanto, falou e fez, prometeu e cumpriu, para utilizar uma linguagem política... Salta aos olhos a clareza com que Machado anunciava o MACHADO:
“Pelo que respeita à análise de paixões e caracteres são muito menos comuns os exemplos que podem satisfazer à crítica; alguns há, porém, de merecimento incontestável.
Esta é, na verdade, uma das partes mais difíceis do romance, e ao mesmo tempo das mais superiores. Naturalmente exige da parte do escritor dotes não vulgares de observação, que, ainda em literaturas mais adiantadas, não andam a rodo nem são a partilha do maior número.”
O que afirma nestas linhas? Que a literatura nacional aguarda ansiosamente um Machado que a liberte da descrição de lugares inóspitos, que crie personagens densos psicologicamente, enfim, um escritor de envergadura universal. É nesse contexto, creio, que a célebre frase de Machado de Assis pode ser melhor compreendida: “O que se deve exigir do escritor antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço.”
O Machado de 1873 não pode levar a cabo imediatamente a empreitada que propunha à literatura nacional. Publicaria, após Ressurreição, A mão e a luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878). Talvez por premeditar o castigo, o nosso Sísifo, mesmo com a consciência demonstrada em “Instinto de Nacionalidade”, adiou por mais setes anos a revelação dos segredos dos deuses para os homens.