O escritor russo Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, famoso autor de Crime e Castigo, também sofreu na pele o que o herói do romance, Raskolnikov, teve de passar. No livro, o personagem é condenado à prisão. E o pior, na Sibéria. Dostoiéski ficou cinco anos preso. O motivo foi o fato de pertencer ao chamado “Círculo de Petrachévski”. Os intelectuais da época reuniam-se na casa de Petrachévski, um jovem russo, daí o nome. Eram subversivos? Alguns sim, outros não. Porém, não era nem um pouco provável que pudessem abalar as estruturas do regime czarista. Alguns, como Dostoievski, nem eram contrários ao regime, apenas desejavam reformas, como o fim da escravidão dos camponeses. Dostoiévski não passava por bons momentos no fim da década de 1840, antes de ser preso. O sucesso repentino de seu primeiro romance, Pobre Gente, o deixou transtornado. Não soube lidar com intelectuais, como o crítico responsável pela sua fama, Bielínski. Facilmente se indispunha com eles, o que redundou no fracasso do seu segundo livro, O Duplo. Era tido como socialmente intratável, muito solitário e, muitas vezes, extravagante. Esse comportamento explica porque Dostoiéski não enlouqueceu, como disse após ser libertado (“a prisão evitou que eu enlouquecesse”). Porém, não esclarece o porquê do escritor sempre se referir ao tempo que passou preso como uma benção. Proveniente de uma família do interior da Rússia de religião ortodoxa, o escritor aos poucos perdeu a religiosidade da infância (embora houvesse brigado com Bielínski porque este havia dito que Cristo, se viesse à Terra hoje, seria um homem comum. Dostoievski replicou apaixonadamente). É na prisão que ele revê a sua vida e os seus princípios. Duas pessoas foram fundamentais nesse processo: o camponês Marei e a sra. Fonvízina.
O camponês Marei
Segundo o maior biógrafo de Dostoiévski, Joseph Frank, o episódio do camponês Marei aconteceu no segundo ano em que o escritor estava preso. Na verdade, não foi um acontecimento, mas uma lembrança. No primeiro ano na prisão, Dostoiévki sofreu bastante com as condições precárias de vida, mas principalmente com uma decepção: o povo russo. Ele pensava que o homem comum da Rússia era “bom”, ainda que tenha cometido crimes. Porém, no cárcere percebeu que não era bem assim. Eram homens rudes e o discriminavam por ser um intelectual. Durante a Semana Santa, Dostoiévski dizia-se “cheio de ódio”. Não suportava mais viver com os outros presos. Em meio a uma grande angústia, veio à sua memória uma recordação de infância. Quando tinha nove anos, estava passeando pelo bosque da propriedade do pai e ouviu pessoas gritando: “-Lobo!” Ele saiu correndo e chorando. No meio do caminho, encontrou-se com um servo do pai, o camponês Marei. No livro Diário de um escritor, Dostoiévski conta como foi consolado pelo camponês: “‘Vamos, tudo acabou, vamos, Cristo esteja contigo: faze um sinal da cruz.’ Mas eu não fiz o sinal da cruz; meus lábios estavam crispados nas comissuras e creio ser isto que mais o impressionava. Ele aproximou seu polegar de unha negra, suja de terra e, com doçura, roçou meus lábio convulsos” (págs. 215-216 – Editora Vecchi). Em seguida, o camponês fez o sinal da cruz na testa da criança. Para Dostoiévski, essa recordação foi fundamental para que ele voltasse a acreditar na missão divina do povo russo: “senti que daí por diante poderia considerar estes infelizes (os presos) de outra maneira e que, de súbito, todo o ódio e toda a cólera desapareceria do meu coração” (idem , pág. 218). Outra história marcante aconteceu quando recém havia saído da prisão.
A sra. Fonvízina
A sra. Fonvízina foi uma das três mulheres a visitar Dostoiévski quando ele estava na cidade de Tobolsk, antiga capital da Sibéria ocidental e último ponto antes do presídio, a fortaleza de Pedro e Paulo. Essas mulheres eram esposas de decabristas, homens que foram deportados para a região em 1825. As esposas os seguiram e se dedicavam a dar um último conforto aos que iam para o cárcere. A sra. Fonzívina entregou a Dostoiévski um exemplar do Novo Testamento (no qual ele ensinou um presidiário a ler) que guardou como uma relíquia para o resto da vida e, dentro do livro, havia dez preciosos rublos, fundamentais para “arranjar” algumas regalias na prisão. Foi a esta senhora que o escritor confidenciou a sua transformação durante os anos na fortaleza de Pedro e Paulo: ... Eu mesmo vivi e sofri isso (o estado depressivo em que se encontra a senhora Fonvízina) e posso dizer que, nesses momentos, uma pessoa tem tanta sede de fé como a grama crestada pelo sol tem sede de água”. (...) Digo-lhe que sou um filho deste século, um filho da descrença e da dúvida. Sou assim hoje e (disso estou certo) assim continuarei até o túmulo. Quantas terríveis torturas essa sede de fé me custou e ainda me custa hoje, e quanto mais forte se torna, mais argumentos posso encontrar para rejeitá-la. E, no entanto, Deus às vezes me envia instantes de total serenidade. Nesses momentos eu amo as pessoas e me sinto amado por elas, e foi nesse instante que criei para mim um credo em que tudo é límpido e sagrado. Esse credo é muito simples. Ei-lo: crer que nada é mais belo, profundo, compreensivo, razoável, viril e perfeito do que Cristo. E digo a mim mesmo, com um amor ciumento, que não há nada, como também não pode haver mais nada. Ainda mais: se alguém me demonstrasse que Cristo está fora da verdade e que, na realidade, a verdade está fora de Cristo, então eu preferiria permanecer com Cristo e não com a verdade (idem, pág. 227). Dostoiévski saiu sofrido e renovado. Apesar de suas boas intenções, demorou um bom tempo para ter uma vida harmoniosa. Somente com a morte da primeira esposa é que ele pode encontrar um grande amor e escrever os seus grandes romances. Mas essa já é outra história.