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Chuva de granito
Estava escrevendo ao som da britadeira. Eram quatro horas da tarde. Havia passado a manhã ao lado de um aspirador de pó. Em pleno século XXI, duas ferramentas, doméstica e pedrerística, fazem mais barulho do que os ruídos de todas as eras da humanidade juntas. O mais cruel de uma britadeira é que o sujeito que a manipula fica cinco minutos com a máquina ligada e pára. O silêncio dessa parada é paradisíaco. Ouvia pássaros na cabeça. Porém, ele recomeçou outra vez o massacre. Penso que o método de tortura mais eficaz seria deixar o sujeito ao lado de uma britadeira durante cinco minutos e desligá-la por outros cinco. Por uma cinco horas. Fica aí a dica...
Bom, mas o leitor mais sentimental deve estar se perguntando: “e o pobre do homem que fica buscando o centro do universo com a britadeira? Não é ele o maior prejudicado?” Para que ninguém me acusasse de insensível, saí à janela. Ele, digamos, deixo ver, tinha cara de... Borba! Bem, o Borba ao menos tem tampão de ouvido. Além disso, o trabalho dele não estava sendo arruinado pelo de ninguém. Mas e a cabeça dele? Não terá se transformado em açúcar caramelado? É uma questão sociológica interessante. Decide averiguar isso.
- Ô Borba! Borbaaa! Borbaaaaaaaa!
Vejo que os pedreiros começam a apontar para o oitavo andar. Acho que ninguém disse ao Borba que ele se chama Borba. Fazer o que, não?
Escutei um deles gritando:
- Ó o maluco lá em cima. Acho que vai se matá...
Gritei lá de cima:
- Quero falar com o Borba!
Um comentou com o outro:
- Ele disse que vai se joga agora.
- Fala pra ele não fazê isso.
(o suposto Borba toma a palavra)
- Rico é tudo assim. Se mata por qualquer coisa. Queria vê ele pega essa britadera aqui. Num ia te tempo pra pensar em bestera.
- Ou não ia pensa que nem você, bestão
Todos caíram na risada. Percebei que eles não estavam me entendendo. Tive uma grande idéia: Eles não estavam me entendo por um motivo muito lógico e sociológico. Eu estava falando em um outro idioma para eles. Tinha que falar na língua deles:
- ô seus abestado! To querendo sabe se esse treco de martela ta dexando voceis idiota.
Percebi que eles entenderam. Nada como a boa sociologia. Os outros dois bateram no ombro do Borba. Ele jogou a britadeira no chão. Agora sim!
O Borba se abaixou e deu umas coisinhas na mão dos outros. Parecia pedra. Achava que eles responderiam por sinais. Fiquei empolgado e mandei uns sinais pra eles também. A maior festa!
(...)
- Doutor, Doutor.
- Olha, finalmente acordou!
- Onde é que eu estou?
- No hospital, não se lembra?
- Lembrar do que?
- Você, levou 32 pedradas na cabeça, 8 no peito e 3 no ombro. Foi difícil consertar tudo.
- Ai, minha cabeça! Posso ir até a janela pra tomar um ar?
- Fique à vontade.
- Tem uma obra bem aqui na frente! Ai meu Deus...
- Aê burguêis! Gosto da chuva de granito que nós te demo? Melhó se fica quietinho ai drento, falo?
Não respondo nada. Pra mim chega de sociologia.