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Arquivo de: Setembro 2006

27.09.06

Histórias da vida real: "Louca de café"

Para quem não tem o vício de tomar café, é muito difícil explicar porque outros o tomam todos os dias. Embora se possa dizer a um gaúcho mais tradicional que é como tomar mate. É bom tomar chimarrão todos os dias? É. Mas chegar ao ponto de dizer que é uma delícia seria um exagero. Com o café acontece a mesma coisa. Além disso, há o problema de que em todo o lugar há pontos de venda de café. Qualquer lugar é lugar para se tomar um.
Pois bem, mas o fato é que eu tinha ido ali, como faço diariamente. Infelizmente peguei o evento já pela metade. Uma senhora, mais parecia uma sibila, com o seu cajado na mão, tinha recebido de um senhor caridoso um vale-café. Mal sabia ele o erro que estava cometendo. A senhora sibila vira-se para a balconista:
- Não dá para tomar um refrigerante?
- Não. O refrigerante é mais caro. Dá só para um café.
- Eu não gosto de café.
- Só dá prum café...
- Então faz um fraco porque eu não gosto de café forte.
Ela falava com uma voz tremenda. Para se ter uma idéia do seu timbre, é preciso imaginar a seguinte cena. Contam que Beethoven, quando compôs a nona sinfonia, estava praticamente surdo e por isso a música apresenta, em certas partes do canto, notas muito agudas. Para as sopranos é muito difícil cantar essas partes. Sem querer dessacralizar a obra, elas têm de esganiçar. Pois bem. Imagine agora que, ao invés de uma soprano, colocassem uma arara. Quem conseguiu imaginar a cena, tem uma idéia da tragédia vocal que se presenciava no local.
Enquanto o café era feito, a sibila mudou completamente a voz e se dirigiu a um rapaz que aguardava o café. Agora ela parecia falar como Beatriz na imaginação de Dante:
- Moço, você não poderia me pagar refrigerante?
- Vem cá, disse o rapaz, você não acha que é muita folga sua? ‘Não tomo café, não quero isso, não quero aquilo...’
- Você sabe porque eu não prendi nada?, disse, voltando a voz de arara, Foi porque eu tomei muito café. Café faz mal pra cabeça. É por isso que eu fiquei assim. Meu pai me batia e eu tomava café. Por isso que eu fiquei assim.
O tal do moço já estava arrependido de ter provocado a moça (?), mas foi então que ela mostrou o seu lado profetiza. Com o cajado apontado para o rapaz, proclamou:
- E você, você, que ta aí tomando o seu café, você também vai ficar assim. Café estraga a cabeça. É por isso que eu não aprendo nada. Meu pai me bateu e o café me deixou assim.
Nesse momento a balconista traz o café com leite e ela toma um gole:
- Tá forte. Não dá para me dar um refrigerante?
- Se quiser, é um café.
- Cadê o moço que tava aqui?
- Já foi embora,
- E o filho da p... nem pra me pagar um refrigerante! 

  • criado por  Eduardo Gama criado por Eduardo Gama
  • Postado em 11:16:58

25.09.06

Cinema: as maiores bilheterias de 2006

     Antes do começo do último trimestre de 2006, a lista das maiores bilheterias do ano é encabeça por "Piratas do Caribe 2", que ultrapassou a marca de 1 milhão de dólares, algo incomum na história. Apenas dos filmes tinham alcançado tal feito: "Titanic" e o terceiro "O senhor dos anéis".
     O primeiro título da saga arrecadou 654 milhões, frente a um orçamento de 140 milhões, enquanto o segundo custou 225 milhões. Em maio de 2007 haverá a estréia da terceira parte de “Piratas do Caribe”, rodada ao mesmo tempo do que a segunda.
     As sagas são bastante rentáveis. Dos dez filmes mais vistos da história, nove eram episódios de uma saga. A exceção foi "Titanic", com 1.845 milhões.
     O segundo lugar em bilheteria foi de "O Código da Vinci", com 753 milhões, a maior parte (71%) fora dos Estados Unidos.
                                                                                                      (fonte: Aceprensa)
    

 Como só encontrei uma tabela em espanhol, resolvi postá-la assim mesmo:


  • criado por  Eduardo Gama criado por Eduardo Gama
  • Postado em 17:03:20

Cinema: as maiores bilheterias de 2006

     Antes do começo do último trimestre de 2006, a lista das maiores bilheterias do ano é encabeça por "Piratas do Caribe 2", que ultrapassou a marca de 1 milhão de dólares, algo incomum na história. Apenas dos filmes tinham alcançado tal feito: "Titanic" e o terceiro "O senhor dos anéis".
     O primeiro título da saga arrecadou 654 milhões, frente a um orçamento de 140 milhões, enquanto o segundo custou 225 milhões. Em maio de 2007 haverá a estréia da terceira parte de “Piratas do Caribe”, rodada ao mesmo tempo do que a segunda.
     As sagas são bastante rentáveis. Dos dez filmes mais vistos da história, nove eram episódios de uma saga. A exceção foi "Titanic", com 1.845 milhões.
     O segundo lugar em bilheteria foi de "O Código da Vinci", com 753 milhões, a maior parte (71%) fora dos Estados Unidos.
                                                                                                      (fonte: Aceprensa)
    

 Como só encontrei uma tabela em espanhol, resolvi postá-la assim mesmo:


  • criado por  Eduardo Gama criado por Eduardo Gama
  • Postado em 16:59:28

21.09.06

Dostoievski na prisão

     O escritor russo Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, famoso autor de Crime e Castigo, também sofreu na pele o que o herói do romance, Raskolnikov, teve de passar. No livro, o personagem é condenado à prisão. E o pior, na Sibéria.
     Dostoiéski ficou cinco anos preso. O motivo foi o fato de pertencer ao chamado “Círculo de Petrachévski”. Os intelectuais da época reuniam-se na casa de Petrachévski, um jovem russo, daí o nome. Eram subversivos? Alguns sim, outros não. Porém, não era nem um pouco provável que pudessem abalar as estruturas do regime czarista. Alguns, como Dostoievski, nem eram contrários ao regime, apenas desejavam reformas, como o fim da escravidão dos camponeses.
     Dostoiévski não passava por bons momentos no fim da década de 1840, antes de ser preso. O sucesso repentino de seu primeiro romance, Pobre Gente, o deixou transtornado. Não soube lidar com intelectuais, como o crítico responsável pela sua fama, Bielínski. Facilmente se indispunha com eles, o que redundou no fracasso do seu segundo livro, O Duplo. Era tido como socialmente intratável, muito solitário e, muitas vezes, extravagante.
Esse comportamento explica porque Dostoiéski não enlouqueceu, como disse após ser libertado (“a prisão evitou que eu enlouquecesse”). Porém, não esclarece o porquê do escritor sempre se referir ao tempo que passou preso como uma benção. Proveniente de uma família do interior da Rússia de religião ortodoxa, o escritor aos poucos perdeu a religiosidade da infância (embora houvesse brigado com Bielínski porque este havia dito que Cristo, se viesse à Terra hoje, seria um homem comum. Dostoievski replicou apaixonadamente). É na prisão que ele revê a sua vida e os seus princípios. Duas pessoas foram fundamentais nesse processo: o camponês Marei e a sra. Fonvízina.

     O camponês Marei

     Segundo o maior biógrafo de Dostoiévski, Joseph Frank, o episódio do camponês Marei aconteceu no segundo ano em que o escritor estava preso. Na verdade, não foi um acontecimento, mas uma lembrança. No primeiro ano na prisão, Dostoiévki sofreu bastante com as condições precárias de vida, mas principalmente com uma decepção: o povo russo. Ele pensava que o homem comum da Rússia era “bom”, ainda que tenha cometido crimes. Porém, no cárcere percebeu que não era bem assim. Eram homens rudes e o discriminavam por ser um intelectual.
Durante a Semana Santa, Dostoiévski dizia-se “cheio de ódio”. Não suportava mais viver com os outros presos. Em meio a uma grande angústia, veio à sua memória uma recordação de infância. Quando tinha nove anos, estava passeando pelo bosque da propriedade do pai e ouviu pessoas gritando: “-Lobo!” Ele saiu correndo e chorando. No meio do caminho, encontrou-se com um servo do pai, o camponês Marei. No livro Diário de um escritor, Dostoiévski conta como foi consolado pelo camponês: “‘Vamos, tudo acabou, vamos, Cristo esteja contigo: faze um sinal da cruz.’ Mas eu não fiz o sinal da cruz; meus lábios estavam crispados nas comissuras e creio ser isto que mais o impressionava. Ele aproximou seu polegar de unha negra, suja de terra e, com doçura, roçou meus lábio convulsos” (págs. 215-216 – Editora Vecchi). Em seguida, o camponês fez o sinal da cruz na testa da criança. Para Dostoiévski, essa recordação foi fundamental para que ele voltasse a acreditar na missão divina do povo russo: “senti que daí por diante poderia considerar estes infelizes (os presos) de outra maneira e que, de súbito, todo o ódio e toda a cólera desapareceria do meu coração” (idem , pág. 218).
      Outra história marcante aconteceu quando recém havia saído da prisão.

     A sra. Fonvízina

     A sra. Fonvízina foi uma das três mulheres a visitar Dostoiévski quando ele estava na cidade de Tobolsk, antiga capital da Sibéria ocidental e último ponto antes do presídio, a fortaleza de Pedro e Paulo. Essas mulheres eram esposas de decabristas, homens que foram deportados para a região em 1825. As esposas os seguiram e se dedicavam a dar um último conforto aos que iam para o cárcere. A sra. Fonzívina entregou a Dostoiévski um exemplar do Novo Testamento (no qual ele ensinou um presidiário a ler) que guardou como uma relíquia para o resto da vida e, dentro do livro, havia dez preciosos rublos, fundamentais para “arranjar” algumas regalias na prisão. Foi a esta senhora que o escritor confidenciou a sua transformação durante os anos na fortaleza de Pedro e Paulo:
... Eu mesmo vivi e sofri isso (o estado depressivo em que se encontra a senhora Fonvízina) e posso dizer que, nesses momentos, uma pessoa tem tanta sede de fé como a grama crestada pelo sol tem sede de água”. (...) Digo-lhe que sou um filho deste século, um filho da descrença e da dúvida. Sou assim hoje e (disso estou certo) assim continuarei até o túmulo. Quantas terríveis torturas essa sede de fé me custou e ainda me custa hoje, e quanto mais forte se torna, mais argumentos posso encontrar para rejeitá-la. E, no entanto, Deus às vezes me envia instantes de total serenidade. Nesses momentos eu amo as pessoas e me sinto amado por elas, e foi nesse instante que criei para mim um credo em que tudo é límpido e sagrado. Esse credo é muito simples. Ei-lo: crer que nada é mais belo, profundo, compreensivo, razoável, viril e perfeito do que Cristo. E digo a mim mesmo, com um amor ciumento, que não há nada, como também não pode haver mais nada. Ainda mais: se alguém me demonstrasse que Cristo está fora da verdade e que, na realidade, a verdade está fora de Cristo, então eu preferiria permanecer com Cristo e não com a verdade (idem, pág. 227).
     Dostoiévski saiu sofrido e renovado. Apesar de suas boas intenções, demorou um bom tempo para ter uma vida harmoniosa. Somente com a morte da primeira esposa é que ele pode encontrar um grande amor e escrever os seus grandes romances. Mas essa já é outra história.

Eduardo Gama
  • criado por  Eduardo Gama criado por Eduardo Gama
  • Postado em 11:12:37

19.09.06

Bolsa Família e a economia do Nordeste

Vale a pena ler a reportagem publicada pelo jornal Valor Econômico,elaborada pela jornalista Raquel Salgado. Selecionamos alguns trechos da matéria publicada no dia 18/09/2006.

     O crescimento mais robusto da economia nordestina, ancorado nos programas de transferência de renda e no reajuste do salário mínimo, não tem se refletido em um ritmo mais forte de geração de empregos com carteira assinada. Em agosto deste ano, a renda decorrente dos benefícios pagos no Bolsa Família foi 36,4% maior do que a de agosto do ano passado nas cidades do Nordeste. Com isso, as vendas do comércio dessa região avançaram bem acima da média nacional e a produção da indústria também superou a média do país. Porém, a quantidade de vagas formais abertas de janeiro a julho deste ano no Nordeste foi 17% menor do que a vista no mesmo período de 2005. No país todo, o ritmo foi quase idêntico ao do ano passado: queda de apenas 0,5%.
     No primeiro semestre de 2006, as vendas do varejo nordestino avançaram 10,6%, bem acima dos 5,7% do Brasil, segundo os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mas esse resultado não impactou o emprego no setor. Pelos cálculos do economista Fábio Romão, da LCA Consultores, que agregou os números do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) por regiões, houve uma queda de 15% na quantidade de vagas geradas no varejo nordestino. No ano passado, foram abertos 21,9 mil postos no comércio. Até julho deste ano, foram 18,6 mil empregos formais no mesmo setor e região.
     A maior abrangência do Bolsa Família no governo Lula e o aumento do valor do Benefício de Prestação Continuada (BCP), concedido a idosos e portadores de deficiência sem condição de sustento próprio ou amparo, e das aposentadorias, ambos vinculados ao reajuste do salário mínimo , têm maquiado o crescimento da economia nordestina, na avaliação de especialistas ouvidos pelo Valor. No final do ano passado, 8,7 milhões de famílias brasileiras recebiam benefícios do Bolsa Família. Até agosto deste ano, 11,2 milhões de famílias estão no programa, um crescimento de 28,35%.
     (...) Ainda que a maior renda em circulação não tenha sido capaz de movimentar a economia de pequenas e médias cidades do Nordeste, era de se esperar algum reflexo no emprego no comércio, que também não veio. "Quando você tem um adicional desse porte na renda corrente de uma população humilde, que praticamente não poupa, o impacto principal é sobre o comércio: vendas e emprego", diz Fábio Romão, da LCA Consultores. O economista acredita que devem ter sido abertos alguns postos de trabalho no comércio das cidades onde muitas pessoas são beneficiadas pelo Bolsa Família, mas a maioria deles deve ser sem carteira de trabalho e, por isso, não entram na conta do Caged.
      O governo diz que o Bolsa Família não tem como intuito dinamizar a economia das cidades onde as famílias atendidas vivem. "Ele é um programa emergencial, para tirar as pessoas da extrema pobreza", explica Paula Montagner, coordenadora do Observatório do Trabalho, no Ministério do Trabalho. Ela diz que boa parte das cidades com alto índice de cobertura pelo programa vivem da agricultura e a economia é de subsistência.
      "Para reduzir pobreza e desigualdade é preciso ter uma série de iniciativas e o Bolsa Família é uma delas", argumenta Rosani Cunha, secretária nacional de renda de cidadania do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Segundo ela, o programa pretende aliviar a pobreza de forma imediata e reduzi-la entre gerações: os filhos devem ser menos pobres do que os pais e, por isso, exige-se a contrapartida da freqüência escolar.
      Mas se a economia local se movimenta pouco e não gera empregos suficientes, como então os beneficiados pelo Bolsa Família deixarão o programa? Paula diz que uma das propostas vem da economia solidária, onde os programas oficiais reúnem os moradores em cooperativas para explorar algum potencial local. São ações de concessão de microcrédito, associativismo e criação de centros de comercialização dos bens produzidos. "Há dois anos a economia solidária toca esses projetos", diz.
     O economista Marcelo Cortes Neri, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), diz que os programas de transferência de renda - Bolsa Família, Loas, BPC - estão trazendo uma circulação de moeda nas cidades nordestinas que antes não existia. "Nesses locais, a economia é muito baseada na troca, no escambo, mas isso tem mudado. Com a expansão do crédito consignado, especialmente para os aposentados, há uma injeção de dinheiro", afirma.
     (...) Os analistas ouvidos pelo Valor acreditam que enquanto não houver maior investimento público em outras áreas como educação e infra-estrutura, a economia nordestina patinará e ficará refém das transferências de renda. É preciso que mais empresas passem a investir na região. Fabio Veras, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e membro do Centro Internacional de Pobreza, diz que algumas empresas têm buscado o mercado popular do Nordeste e investiram em fábricas por lá, caso da Unilever, que está produzindo sabão em pó popular na região.
      Vale, da MB Associados, é mais pessimista. Ele diz que o consumo popular realmente cresceu, mas, assim que o estímulo dado pelos programas federais diminuir, esse poder de compra vai estacionar. Como no próximo ano o estímulo fiscal do governo não deverá ser tão forte, devido ao déficit da Previdência, a expectativa de uma demanda mais forte na região não se concretizará. "As empresas que já chegaram lá podem ficar bem, mas quem quiser entrar no mercado agora não deverá ser bem sucedido", diz.

  • criado por  Eduardo Gama criado por Eduardo Gama
  • Postado em 00:51:02